26 de setembro de 2011

Aprendendo com o passado

Ilm. e Exm. Sr. - Sua Magestade o Imperador a Quem foi presente o officio dessa Presidencia de 25 de Outubro do anno passado, submettendo á consideração do Governo Imperial o parecer do Presidente do Tribunal da Relação sobre as duvidas suscitadas pelo Juizo Municipal do Termo de Carinhanha ácerca da supplencia daquelle Juizo, Houve por bem, por sua Imperial Resolução de 10 do corrente mez sobre Consulta da Secção de Justiça do Conselho de Estado, Decidir que nos termos reunidos, em que ha supplentes, na forma do Decreto nº 276 de 24 de Março de 1843 sob a jurisdicção de um so Juiz Municipal, não pode, á vista da Ordenação Livro 1º, Tit. 79, § 43, servir como primeiro supplente do Juiz Municipal o seu irmão ou cunhado, porquanto é um  e o mesmo Juizo, em que um e outro simultaneamente servem, aquelle preparando os processos, este julgando-os. Deus Guarde a V. Ex.  - Jose Thomaz Nabuco de Araujo.
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Decisões do Governo do Imperio do Brazil, Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1866, Tomo XXIX, p. 80.

Terras baldias

Terreno por detras da Serra do Ramalho na Villa da Carinhanha, entre o rio corrente, e o de S. Francisco, com 23 legoas de extensão e 8 de largura, que ninguem penetrou, por isso nada se póde dizer seu justo valor, e demarcação segundo informação do Dr. Juiz de Direito da Comarca em 4 de novembro de 1836.
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FREIRE. Felisbello. Historia Territorial do Brasil. 1º Vol. Bahia, Sergipe e Espirito Santo. Ed. Fac-símilar, p. 461.

17 de agosto de 2011

Moção de apluso

 Pronunciamento do Sr. Dep. Waldenor Pereira - PT/BA em 17/08/2011, na Câmara dos Deputados.

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, o Município de Carinhanha foi ciado em 17 de agosto de 1909, por força do Decreto-Lei Estadual nº 762, tendo sido desmembrado do Município de Barra do Rio Grande.
Carinhanha encontra-se localizada às margens do Rio São Francisco, distante 900 quilômetros de Salvador, e possui uma população estimada em 28.380 habitantes, segundo o censo do IBGE de 2010. Sua economia está baseada na agropecuária, com vocação para a criação de bovinos e suínos. Seu principal festejo é o Encontro das Águas e dos Amigos, que é um evento oficial, instituído no calendário de festividades e comemorações do Município pela Lei Municipal nº 996, de 22 de maio de 2007. Esse grandioso evento, agora em sua quinta edição, vem firmando-se como o maior festival de arte e cultura popular em toda a região do médio São Francisco.
O Município de Carinhanha surgiu a partir dos confrontos entre os índios caiapós e o bandeirante Manuel Nunes Viana, vencedor dos paulistas na Guerra dos Emboabas, aproximadamente em 1712. Segundo a história local, o bandeirante atingiu a margem esquerda do Rio São Francisco e foi para o sul, atravessando o Rio Carinhanha, ou Carinhenha, onde encontrou o aldeamento caiapó, resultando numa luta sangrenta que finalizou com o fracasso dos índios. Vencedor da batalha, o bandeirante fixou base para suas conquistas onde posteriormente veio a ser o centro de intercâmbio entre a Bahia e o Estado de Minas Gerais.
Muitos queriam que o nome do local fosse Carunhanha, que significa loca de sapo; entretanto, a maioria atribui o topônimo indígena àgrande quantidade de aves de nome carunhenha existentes outrora no lugar. Em 1832, o julgado de São José de Carinhanha, pertencente à comarca do Rio São Francisco, foi elevado à categoria de vila.
Atualmente, em parceria, os Governos Estadual, Federal e Municipal vêm implementando políticas que contribuem para o desenvolvimento social e econômico do Município, tais como: a recuperação de 131 quilômetros daBA-161, que liga Carinhanha à BR-349; a construção da ponte sobre o Rio São Francisco que interliga as cidades de Carinhanha e Malhada; a instalação de unidade do PSF, que em Carinhanha tem a sua estratégia voltada para a prevenção das doenças, com campanhas, palestras e acompanhamento das famílias; o Programa TOPA, que vem contribuindo para a formação de parcela significativa dos profissionais que atuam na educação de Carinhanha; a aprovação pelo Comitê Gestor do Programa Luz Para Todos, do Governo Federal, de 11 comunidades para serem contempladas, beneficiando cerca de 1.360 pessoas.
Ainda está previsto pelo setor de engenharia da CODEVASF o Projeto Água Para Todos, que vai beneficiar 11 localidades com cinco sistemas de tratamento de água, captando a água do Rio São Francisco; depois de tratada, vai ser levada essa água, limpa e de qualidade, para várias localidades do Município. Está prevista também a inauguração do Centro de Inclusão Digital Quilombola do Distrito de Barra do Parateca, que é uma das comunidades mais antigas de Carinhanha.
Há também o Projeto Educando com a Horta Escolar, que é uma iniciativa da FAO, órgão das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação, e do FNDE, Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, e foi concebido com a finalidade de intervir na cultura alimentar e nutricional dos escolares, com base no entendimento de que é possível promover a educação integral de crianças, adolescentes e jovens de escolas e comunidades do seu entorno por meio das hortas escolares, incorporando a alimentação nutritiva, saudável e ambientalmente sustentável como eixo gerador da prática pedagógica. Graças ao empenho da Prefeitura de Carinhanha e com o envolvimento das escolas e da comunidade, o Município tomou-se referência nacional desse projeto, o que já motiva outros Municípios a também abraçarem a causa da alimentação saudável e do meio ambiente ecologicamente sustentável.
Como Deputado Federal defensor dos interesses do Município, sinto-me orgulhoso de compor esse projeto político que foi capaz de dar dignidade ao povo de Carinhanha, melhorando sua qualidade de vida graças a tantos programas sociais implementados nestes anos de administração petista. Portanto, desejamos a toda população carinhanhense, em especial à sua Prefeita Chica do PT, a continuidade desse projeto, pautado numa administração participativa e democrática, que visa sobretudo a uma transformação social justa e igualitária.
Da mesma forma, deixo registrados nos Anais da Câmara dos Deputados nossos votos de congratulações e estima ao povo de Carinhanha.

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Fonte: Câmara dos Deputados - DETAQ /Discursos e notas taquigráficas/www.camara.gov.br

UM PASSEIO POR CARINHANHA DE 1956

CARINHANHA - BA

HISTÓRICO - Os habitantes primitivos desse território foram os índios caiapós, que tinham aldeia localizada nas terras onde hoje se encontra a cidade de Carinhanha. Viviam os nativos na mais completa harmonia quando, pelo ano de 1654, presumivelmente, nele prenetrou pela primeira vez o homem civilizado.
Segundo a tradição local, coube a primazia da fundação do território de Carinhanha, em 1709, ao famoso bandeirante Manuel Nunes Viana, vencedor implacável dos paulistas, na Gerra dos Emboabas, no Capão da Traição.
Esse famoso bandeirante, comandando uma das bandeiras organizadas pelos herdeiros do mestre-de-campo Antônio Guedes de Brito, partiu do litoral baiano, pelo ano de 1708, em busca do rio das Velhas, percorreu itinerário deveras interessante, pois sua bandeira passou pelo frigido Morro do Chapéu, na famosa Chapada Diamantina, somente atingindo a margem esquerda do rio São Francisco, um ano após a partida. Alcançando êsse objetivo, rumou em direção sul, vindo atravessar o referido rio perdo da confluência do mesmo com o rio Carinhanha ou Carunhenha, ali encontrando aldeamento de índios caiapós. Houve prolongada e encarniçada luta. Os caiapós, na ocasião, dominavam toda a vasta extensão da serra do Ramalho. 
Depois de vencida a resistência dos caiapós, Nunes Viana aí estabeleceu a base de operações, para suas grandes e históricas conquistas. Fixou-se definitivamente naquele território, que posteriormente veio a ser centro de intercâmbio entre a Bahia e o Estado de Minas Gerais. 
O local primeiramene devastado chamava-se Carunhenha. Essa denominação era controvertida, querendo alguns observadores que fosse "Carunhanha", isto é, "loca de sapo", nome dado ao rio, depois à Povoação; entretanto, a maioria atribui esse topônimo indígena à grande cópia de aves de nome carunhenha existentes no lugar em que aí estabeleceram os primeiros exploradores, aves esses raramente hoje encontradas nas margens das lagoas.
Data, pois, daquela época o povoamento de Carinhanha, e, conforme foi amplamente descrito, se deduz que a principal corrente do povoamento desse município foi de origem nacional, tendo como uma das causas determinantes a procura das minas de ouro do rio das Velhas.
Carinhanha tornou-se grande núcleo demográfico, possuindo dentre outras benfeitorias, a sua capela para desenvolvimento do Culto Católico Romano. No ano de 1813 logrou a categoria de frequesia, sob a invocação de São José de Carinhanha. 
Em 1832, foi o "julgado" de São José de Carinhanh, pertencente à comarca do rio São Francisco, elevado à categoria de vila, através do Decreto de 20 de abril daquele ano, somente sendo inaugurada a 22 de maio de 1834. O mesmo ato criou o município, com território desanexado do de Barra do Rio Grande.
A elevação da vila de Carinhanha à categoria de cidade deu-se por força da Lei estadual nº 762, de 17 de agosto de 1909, assinada pelo então governador Dr. João Ferreira de Araujo Pinho. 
Sua composição administrativa que, até 1931, era de distrito único, passou a figurar com seis, em virtude do Decreto nº 7.479, de 8 de junho do mesmo ano, que lhe incorporou o território do município de Rio Alegre. Manteve-se assim até que, em virtude do Decreto estadual nº 11.089, de 30 de novembro de 1938, perdeu o território do distrito de Alegre, que foi anexado ao município de Santa Maria da Vitória, voltando a figurar com os distritos de Carinhanha, Côcos, Iuiú, Malhada e Parateca. Atualmente apresenta a mesma constituição distrital.
LOCALIZAÇÃO - O município de Carinhanha localiza-se na Zona Fisiográfica do Médio São Francisco, estando o seu território parcialmente incluído no "polígono das secas". Limita-se com os municípios de Correntina, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Palma de Monte Alto, e os Estados de Goiás e Minas Gerais. As coordenadas geograficas da sede municipal são as seguintes: 14º 18' 22'' de latitute Sul e 43º 46' 02'' de logitude W. Gr. Rumo da Capital do Estado à sede municipal O.S.O., cuja distância, em linha reta, é de 561 km.
ALTITUDE - A altitude da sede municipal é de 452 metros.
ÁREA - Sua área é de 18.296 km2, sendo, portanto, um dos grandes municípios baianos, classificando-se no 5º lugar, em extensão territorial.
ACIDENTES GEOGRÁFICOS - O município é pouco acidentado. Como príncipais acidentes geográficos podemos mencionar os rios São Francisco, Carinhanha, Verde Grande. A ilha de Carinhanha, formada pelo rio São Francisco, situada entre a cidade e a vila de Malhada, constitui, também um acidente digno de nota. Várias lagoas importantes estão compreendidas no seu território, notadamente as de: Aguapé, Mucambo, Mucambo Grande, Sama, Pau Preto, Juazeiro e Grande.
CLIMA - O clima é o característico do médio São Francisco. Apresenta-se quente no verão e frio e úmido no inverno. Em 1955, a temperatura da sede municipal apresentou os seguintes dados: média das máximas - 38ºC; média das mínimas - 18ºC e média compensada - 22ºC.
RIQUEZAS NATURAIS - A flora do município, apesar das devastações pelas derrubadas constitui ainda grande riqueza natural, pois nela são encontradas madeiras de lei, a saber: vinhático, peroba, taipoca e outras; a maniçoba e a mangabeira, produtoras da borracha; o jatobá, o croá e outras plantas fibrosas. A fauna é rica em animais silvestres, notadamente o gato-do-mato, a onça-suçuarana e outros. O surubim, a curimatá, o pirá, a piranha, o pacu, a corvina, o dourado e outros peixes constituem também importante riqueza natural. O único mineral extraído é a pedra para construção. Entretanto, há no município jazidas de manganês, cristal, salitre e calcários, tôdas porém latentes.
POPULAÇÃO - A população, segundo dados fornecidos pelo Recenseamento de 1950, era de 23.516 habitantes, sendo 11.214 homens e 12.302 mulheres, predominando os de côr parda, que somavam 13.941 pessoas. Em ordem decrescente, as pessoas de côr branca, preta e amarela, somavam, respectivamente, 5.271, 4.284 e 1. Quanto ao estado civil, coube a primazia aos casados, cujo total foi de 6.965 contra 4.735 solteiros. A maior parte da população se localiza no quadro rural, cuja base percentual se elevava a 83,68%.
AGLOMERAÇÕES URBANAS - Segundo dados censitários, existiam em 1950 cinco aglomerações urbanas, com sua populações: cidade de Carinhanha - 1.707 hab., e vilas de Côcos - 986 hab., Iuiú - 435 hab., Malhada - 476 hab., e Parateca - 234 habitantes. A população da cidade de carinhanha, estimada para 1º de junho de 1957 é de: 2.100 habitantes.
OUTRAS AGLOMERAÇÕES - Além da cidade e das vilas, o município tem nove povoados com populações estimadas para 1957, a saber: Barra de Parateca - 191 hab., Tabuleiro - 282 hab., Ramalho - 711 hab., Sítio do Meio - 156 hab., Venda - 72 hab., e Morrinho - 168 habitantes.
ATIVIDADE ECONÔMICA - O Recenseamento de 1950 revelou que 39% das pessoas em idade ativa (10 anos e mais) estavam ocupadas no ramo "agricultura, pecuária e silvicultura".
O principal sustentáculo econômico do município é a agricultura, cuja produção em 1955, se elevou à crifra de 60.477 milhares de cruzeiros, nela sobressaindo o algodão seu principal produto, que concorreu assim com a maior parcela, ou seja, 19.200 milhares de cruzeiros, seguido de outras culturas: batata-doce, cana-de-açúcar, arroz com casca, mamona em baga, milho, feijão, etc.
Também a atividade pecuária é de grande expressão econômica, uma vez que, segundo dados estimativos, a população pecuária, em 1956, compreendia 100.000 cabeças de bovinos, 220.000 de equinos, 150.000 de assínios, 180.000 de muares, e totais inferiores a 50.000 nos rebanhos de suínos, ouvinos e caprinos. Os principais mercados importadores de gado, são: Itaberaba, Não Estado da Bahia e Montes Claros, no de Minas Gerais.
A produção industrial alcançou em 1955 o valor de 6.433 milhares de cruzeiros, cabendo a primazia ao algodão beneficiado, que concorreu com quase 5.000 milhares de cruzeiros. Os demais são produtos manufaturados, tais como: rapadura, farinha, aguardente, etc., cuja produção, individualmente considerada, é de pequena monta.
Por fim, salienta-se aqui a atividade artesanal, que é também desenvolvida, produzindo vários artigos, salientando-se, entre êles, os que são tecidos com fios de algodão: rêdes, toalhas e cortes de panos para roupas, tudo feito à maneira primitiva. Os artigos de cerâmica são também encontrados nas feiras, mormente moringas, potes, talhas e outros objetos.
MEIOS DE TRANSPORTE E COMUNICAÇÕES - Liga-se diretamente à Capital Federal por via aérea (1.039 quilômetros), à Capital Federal do Estado por via aérea (1.145 quilômentros), às cidades vizinhas, de Bom Jesus da Lapa por via aérea (106 km) e por via fluvial (73 mi); Correntina por estrada de rodagem (210 km); Palmas de Monte Alto por via mista fluvia (2 mi) e rodoviária (9 km); Santa Maria da Vitória por via aérea (115 km), por via fluvial (154 mi) e rodovia (198 km). O município é servido pela emprêsa Real Transportes Aéreos Nacional e pelas emprêsas fluviais Navegação Baiana do São Francisco, Navegação Mineira do São Francisco e Companhia Indústria e Viação de Pirapora. Possui três portos fluviais e um campo de pouso com pista de 1.160 por 65 metros.
COMÉRCIO E BANCOS - O município mantém transações comerciais e bancárias com as praças de Belo Horizonte, Pirapora, e Januária, no Estado de Minas Gerais, e Salvador e Juazeiro no Estado da Bahia. Existem 5 firmas comerciais atacadiastas e 40 varejistas. O giro comercial atingiu em 1956, 24.950 milhares de Cruzeiros. O salário-mínimo oficial decretado para a subzona da qual faz parte o município é de Cr$ 2.000,00.
ASPECTOS URBANOS - A cidade está situada em uma planície à margem esquerda do São Francisco, a 5 metros acima do nível do rio, sendo por isto uma das poucas cidades do São Francisco, que jamais poderá ser inundada. Apesar de pequena, é bem traçada e edificada. A praça principal é a da Matriz, onde estão localizados o ginásio e essa igreja. É calçada a paralelepípedos, ajardinada e dotada de bancos para o público. Conta com 31 logradouros, dos quais pavimentados: 2 a paralelepípedos, 4 a pedras irregulares e 2 arborizados ou ajardinados. Carinhanha é dotada de iluminação pública, cuja rêde elétrica se estende a 24 logradouros, sendo de 165 o número de ligações domiciliárias. Funciona um cinema e um cine-teatro. Na parte concernente à hospedagem, há um hotel e duas pensões com capacidade para 51 hóspedes; possui também uma agência do Departamento dos Correios e Telégrafos.
ASSISTÊNCIA MÉDICO-SANITÁRIA -É de 5 o número de estabelecimentos que prestam assistência médico-sanitária à população, compreendendo 2 postos de combate à malária, 1 pôsto sanitário, 1 pôsto de Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) e 1 pôsto de puericultura mantido pela Associação de Proteção à Maternidade e à Infância. Há 1 hospital regional ainda por inaugurar. Exercem a profissão na cidade 2 médicos, 1 dentista e 1 farmacéutico. Existem 3 farmácias. O município faz parte do setor nº 11, sediado em Juazeiro, do Departamento Nacional de Endemias Rurais.
ASSISTÊNCIA SOCIAL E COOPERATIVISMO - Em Carinhanha existe apenas uma sociedade de beneficência mutuária, que é a Liga Operária Beneficente de Carinhanha, cujo quadro social, em 31 de dezembro de 1956, era composto de 266 membros.
ALFABETIZAÇÃO - Segundo dados fornecidos pelo Recenseamento de 1950, a população de 5 anos e mais era de 19.545 habitantes, compreendendo 9.190 homens e 10.355 mulheres; sabiam ler e escrever 3.872 habitantes, sendo 2.322 homens e 1.550 mulheres, representando uma base percentual de 19,8% daquele total.
ENSINO - Em 1956, funcionavam 35 unidades escolares de ensino fundamental comum, compreendendo 24 municipais e 11 estaduais com a matrícula efetiva de cêrca de 1.187 alunos. O ensino extraprimário é ministrado na sede pôr um estabelecimento, que é o Ginásio São José.
OUTROS ASPECTOS CULTURAIS - Dignas de realce existem 2 bibliotecas, sendo 1 da Prefeitura Municipal, com acervo de 800 volumes, e 1 da Agência Municipal de Estatística, a Biblioteca Teixeira de Freitas, com 300 volumes.
CULTOS RELIGIOSOS - É o município sede da paróquia de São José de Carinhanha, fundada em 1808, e está sob a jurisdição do bispado de Barra. Existe, 1 igreja-matriz, 8 comuns, 3 capelas semipúblicas. Há 4 associações religiosas e 1 templo de culto não católico.
MANIFESTAÇÕES RELIGIOSAS, FOLCLÓRICAS E EFEMÉRIDADES -Várias manifestações de cunho religioso ocorrem no município; porém as que mais sobressaem são as festas consagradas a São José, padroeiro da cidade, e a do Divino Espiríto Santo. A primeira é ali comemorada, anualmente, a 19 de março, e tem duração de dez dias, começando pelo novenário e encerrando-se com a tradicional procissão. A segunda não se realiza todo ano; entrentanto quando a fazem, tem um programa deveras interessante; sua data é móvel e é festejada com procissão e grandes pompas, nela tomando parte várias personagens, que encarnam "imperador", "reis e rainhas", "alferes e mordomos", portando indumentárias típicas ou tradicionais. Também, as conhecidas "cavalhadas, simulando o combate de cristãos e mouros, e os chamados caboclos", são parte integrante dessas festividades que oferecem espectáculo interessante, pelo berrante de suas vestes e desenvoltura de suas coreografias. São três as procissões tradicionais realizadas em Carinhanha: a do seu padroeiro, São José, a do Divino Espírito Santo, ambas já descritas, e a "Procissão do Entêrro", esta realizada anualmente na noite de sexta-feira da Paixão.
Carinhanha tem, outrossim, o seu rito tradicional, que somente é observado por ocasião das sêcas prolongadas e se desenrola da seguinte maneira: reúnem-se mulheres e crianças em número nunca inferior a 30, e munidos de latas, baldes, e jarros vão ao rio, apanham água e vão despejá-la aos pés do "cruzeiro", entoando o bendito de São Rafael, cuja letra é a seguinte:

São Rafael, que morreu
Lá na serra,
Pedi a Nosso Senhor
Que nos dê chuva na terra. (Bis)
          Chuva, na terra,
          Por esmola...
          dai-nos pão,
          Que nos consola.

Molhado o cruzeiro, munem-se de garrafa ou litro de vidro branco cheio de água, põem-no à cabeça e vão a um local, situado a nunca menos de seis quilômetros, trocar um santo, com a condição essencial de ser devolvido somente depois das chuvas.
Por fim, há a festa popular mais característica do município: é a denominada "reisado". Na fase do ano, entre 1º e 6 de janeiro, é que se realizam as festas denominadas "rei do boi", "reisado de caixa" e "contradança". O primeiro é um conjunto de pessoas de ambos os sexos, que saem às ruas, dançando e entoando cânticos típicos ao som de caixa e instrumentos de corda; têm por motivo original a presença de uma armação de madeira e papel, em forma de boi, cujos movimentos lhe são dados por uma pessoa que saiba executar as danças tradicionais. O "reisado de caixa" é também um bloco de pessoas que, acompanhadas de viola e caixa, saem às ruas entoando cânticos e executando números de danças típicas. A exemplo dos dois primeiros, a "contradança" é formada também por pessoas de ambos os sexos, que vão às ruas ao som muito ritmado de instrumentos regionais, exibindo-se em números coreográficos interessantes, quer pela uniformidade dos movimentos, quer pela cadência das palmas batidas, e, sobretudo, pela colocação dos dançantes, que mudam de posição sem se entrechocarem, nem perderem o ritmo da toada.
SITUAÇÃO ADMINISTRATIVA E POLÍTICA - Conta o município 6.150 eleitores inscritos, tendo votado nas eleições de 1954, 3.255 eleitores. A Câmara de Vereadores é composta de 8 membros. Em 1956, exerciam atividades no município 72 funcionários públicos, assim distribuídos: federais 29, estaduais 24, municipais 17 e autárquicos 2.
FINANÇAS PÚBLICAS - As finanças públicas municipais, apresentaram no período de 1950 a 1956 os valores descritos no quadro abaixo: (O quadro será inserido posteriormente em forma de tabela)
JUSTIÇA - Pela Lei provincial nº 6, de 2 de maio de 1835, Carinhanha passou a termo da Comarca de Urubu (Urubu, antigo nome de  Rio Branco ou, atualmente, Paratinga).
A comarca de Carinhanha, composta pelos têrmos déste nome e pelo de Rio das Éguas, foi criada pela Resolução provincial nº 1.311, de 28 de maio de 1873, que extinguiu a de Monte Alto, criada pela Lei provincial nº 809, de 11 de junho de 1860, e consta do têrmo do mesmo nome e do de Carinhanha, desmembrado êste da comarca de Urubu.
Foi extinta pela Lei estatual de 3 de agôsto de 1892, que criou a divisão judiciária, passando a têrmo da comarca de Monte Alto, restaurada esta pela Lei provincial número 1.997, de 9 de julho de 1880.
Em 1898, através de Lei estadual nº 280, de 8 de setembro, foi a comarca de Carinhanha restaurada e constituída pelos têrmos de Carinhanha e Bom Jesus da Lapa. Êste último foi transferido para a de Urubu. Na divisão judiciária de 1904, Carinhanha ficou integrada pelo têrmo do mesmo nome e pelo de Monte Alto (comarca extinta pelo Decreto nº 266, de 4 de outubro de 1904).
A comarca de Monte Alto foi mais uma vez restaurada pela Lei estadual nº 1.119, de 21 de agôsto de 1915, e esta mesma Lei 1.119 extinguiu a comarca de Carinhanha que passou a têrmo da de Rio Branco (ex-Urubu), onde permaneceu até 1943, quando passou a têrmo da comarca de Bom Jesus da Lapa, criada naquele ano pelo Decreto-Lei nº 141, de 31 de dezembro, retificado pelo Decreto nº 12.978, de 1º de junho de 1944.
Por fim, pelo Decreto-Lei estadual nº 512, de 19 de junho de 1945, foi a comarca de Carinhanha mais uma vez restaurada e composta únicamente pelo têrmo do mesmo nome. Em seguida, pela nova divisão judiciária estabelecida pela Lei estadual nº 175, de 02 de julho de 1949, a comarca de Carinhanha, com sede e termo de mesmo nome, foi classificada como comarca de primeira entrância. Entretanto, como até o presente não se investiu nessa função jurídica, Carinhanha continua pertencendo de fato, ao têrmo de Bom Jesus da Lapa.
Conta 12 cartórios, sendo 5 do Registro Civil. O total de feitos julgados em 1956 foi de 18, todos correspondentes ao cível.
OUTROS ASPECTOS DO MUNICÍPIO - Os nascidos no município são denominados "carinhanhenses". A origem e significados do nome Carinhanha provém da língua indígena carunhanha, isté é: "loca de sapo" ou carunhenha, espécie de aves que abundavam na região em eras remotas.
O Prefeito em exercício é o Sr. Francisco Lacerda Pinto, e o presidente da Câmara é o Sr. José de Oliveira Lisboa.
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Fonte: Compilação da Inspetoria Regional de Estatística, por Jehovah de Andrade Campos. - Chefe da Agência Municipal de Estatística: Edmar Alves Pinto.

19 de julho de 2011

Potocas de Deraldinho

Homem simples do povo, baixinho, figura intrigante, funcionário público da Prefeitura de Carinhanha, exerceu cargo de fiscal municipal, foi também Delegado de Polícia (famoso Delegado calça curta), tido como um dos maiores contadores de potocas do Vale do São Fracisco. Entre tantas, ele contou essa numa roda de amigos:
Dizia ele todo sério aos amigos [todos atentos e ávidos para ouvi-lo] que, quando esteve em Belo Horizonte, foi a uma exposição de arte e lá estando, já na sala com várias quadros expostos, um cabra queria lhe convencer de que aquele quadro à sua frente era a obra de arte mais bela da exposição. Então ele virou-se para o cabra e foi logo dizendo:
-Isso aqui não é nada. Lá em Carinhanha, no sertão da Bahia, tem um artista que pinta muito melhor do que este quadro aqui. Você precisa conhecer o quadro que ele pintou no quarto dele.
O cabra curioso foi logo querendo saber mais do tal artista e sua obra de arte.
Deraldinho não se fez de arrogado e foi logo lhe contando da obra de arte do tal artista.
-Rapaz, ele pintou um "quarto de bode" na parede do quarto dele que é uma beleza. Uma obra de arte perfeita. Tão perfeita que a todos que ele mostrava o tal quadro pintado na parede do quarto dele logo iam dizendo: - Ah não! isso aqui é de verdade. Não estão vendo? É carne mesmo, passando a mão para tirar qualquer dúvida pela ilusão que causava às vistas.
Deraldinho arrematou dizendo que tal era a perfeição que o artista teve que cobrir de sal a pintura porque estava dando "varijeira". Até as moscas achavam que era mesmo carne.!!!
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Narrada por Dr. Antônio L. de Almeida em 19/07/2011.

14 de julho de 2011

Mudou alguma coisa de lá para cá?

Relatório em setenta e quatro páginas produzidas pelo Barão de Macaúbas em visita às Vilas da Província da Bahia no ano de 1855. Já naquela época ele relata o drama que vivem os professores de instrução primária nas Vilas de Urubú e Carinhanha. Assim consta de seu relatório:

"ORDENADOS DOS PROFESSORES DE FORA. 

A maior das difficuldades com que luctam os pobres Professores do centro da Província consiste no modo de receber seus ordenados, o que muitas vezes os colloca em circumstancias apertadissimas como tenho sido frequentes vezes de observar nas minhas diversas viagens.
Esses Professores, ordinariamente poucos relacionados vêem-se baldos de uma pessôa que nesta Cidade se encarregue da recepção dos seus ordenados; e quando alguma tenham, falta agora quem promova as precisas transacções para que lhes chegue ás mãos o seu dinheiro.
Quando em fins do anno passado estive nas Villas de Urubú e Carinhanha, ouvi dos respectivos Professores primarios queixas acerbas das privações que soffriam por falta de cobrança de seus ordenados; - e não achavam quem comprasse os seus attestados, mesmo com grande rebate!
O Professor de Carinhanha disse-me mais que despedira um dia os seus discípulos, dizendo-lhes que não podia dar aula por estar com fome(!!!) e não ter com que comprasse cousa alguma! - Ora, da Carinhanha, como do Urubú e outras muitas partes do centro, há muita poucas relações para esta Cidade.
Posso affirmar que raro será o Professor do centro que não venda os seus attestados com 10, 20 por cento (e até mais) de abatimento quando não se vêem reduzidos a receber em um armazem, ou em uma loja, a importância delles em generos carissimos, sem o que nenhum negociante se preste a encarregar-se da respectiva cobrança.
E um Professor que tem apenas 400 $ rs. de ordenado, o qual é tarde e á mas horas recebido, e quasi sempre com um abatimento de 20 por cento, póde achar-se contente de sua posição?
E um Professor, por mais decidida vocação que tenha para o magisterio, poderá julgar-se satisfeito de sua sorte, quando, depois de labutar uma manhãa inteira promovendo com todo esforço o adiantamento dos seus alumnos, não encontra um jantar salubre e restaurante, e ás vezes até nenhum?!! 
Oh! é preciso, é urgente, dar-se remedio a isto".
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Fonte: BORGES, Abílio Cesar (Barão de Macaúbas). Relatório sobre a instrucção pública da Província da Bahia. 1856. pgs. 70/71.

9 de julho de 2011

Severiana Maria da Conceição

Com 93 anos de idade, em 1984. Era conhecida como Sivi do Angico. Deu esta entrevista em 1984. Nasceu em 1903 e morreu em 1987. É assim que descreve a história deste pedação de chão, a mulher mais velha encontrada naquela época, no Patrimônio do Angico, município de Carinhanha.
"Eu nasci na boca da Barra da Parateca. Estou bastante velha, já conheci meio mundo e meio fundo. Quando nasci, Carinhanha só tinha a igreja de São José e a feira de negócios. O Comércio que tinha era umas casinhas ao lado da Igreja, na Praça. Na briga do Cel. João Duque com o Dr Josefino Moreira de Castro, eu tinha 16 anos de idade. Este barulho foi em 1919.
No apaziguamento, eles arranjaram idade pra todo mundo, 'modi' arranjar título de eleitor. Todo mundo teve de usar umas divisas pra entrar no comércio. Era para o povo não brigar mais, pra gente saber se era da parte de um ou de parte de outro. A de João Duque era que nem um ferro. A de Dr. Josefino era no chapéu. O povo chamava de divisa.
João Duque morava era no Itacarambó. Josefino morava na Carinhanha mesmo. Os dois brigavam para ver quem tomava o comércio. Depois que acabou a briga, ajuntou o povo todo pra apaziquar. Arranjaram assinamento de todo mundo dejunto da igreja de São José porque tinha a igrejinha de Santo Antônio, lá atrás também. Fizeram a festa foi na Malhada e assim acabou as brigas. O povo todo brigava: uns do lado do Dr. Josefino e outros do lado do Cel. João Duque.
Ao lado da igreja morava Geminiano. Mas era da igrejinha de Santo Antônio, lá na rua Santo Antônio. Por ali morava também João Pacheco, Doutor, Coronel Chico Timóteo; Dr. Josefino morava na praça, João Alkmim, Tenente Vital. Padre Júlio era o dono da igreja de Carinhanha. Nesse tempo Pe. Júlio gostava de dançar nas festas. Dançava segurando nas mãos das moças. Ele tinha vários filhos em Carinhanha, também.
A escravidão era nas Macaúbas, no Arraiá de Rebello, em São Sebastião do Rio do Pires. Conheci muita gente da escravidão: Joaquim, Sá Germana, o véio Mané Galinha, um homem por nome de João, irmão de Bastiana, mulher de Manuel. Eles vieram de lá das Macaúbas. Conheci o véio Inacim. Tinha o Pedro Nagô e Luís Chifre em Carinhanha. Aqui, eles moravam na Fazenda Brejo. Tinha o Brejo de Cima de Luis Pereira Pinto e tinha o Brejo de Baixo de Janjão, irmão de Luis Pereira Pinto. Joaquim e Germana eram escravos de Luis Pereira. Esse Luis era irmão do Major Olegário Pereira Pinto. Os negros forraram. Mas Luis não quis deixar os negros sairem do cativeiro.
Na escravidão, tinha aqui, o povo das Salinas e o povo do Açúcar. Fazia sal de cozinha que dava na terra, minado, minerosa. Botava água naquela terra e rumava fogo. Secava e dava sal da terra, neste trecho de sertão. Por isto é que ficou com o nome de Fazenda Salinas. O outro sal era de pedra e chamava "Marca Touro". A minha mãe era da Fazenda Salinas, no Espírito Santo, aqui nas Três Ilhas. Na Vargem da Coroa, fazia era açúcar. Era o povo do Açúcar. Tinha muita plantação de cana-de-açúcar nestes arredores. Nesse lugar, chamado Espírito Santo, era a fazenda de Agostinho Fonseca. O meu povo não foi mais escravo não. Meus pais foram José Pereira de Araújo e Ana Rosa da Conceição. Meus irmãos era Felicida, Rufina, Maria, Joaquim, Ana. Era o povo dos Bambina. Eu casei com Abílio. Depois de dez anos de casada, perdi o marido. Não tive nhemuma cria. Só tenho filho de pegação. Estes eu tenho aos montes presse Brasil afora todo. Sempre trabalhando, conheci e plantei muita cana-de-açúcar neste sertão. Cada de cachaça. Já fui fazendeira de rapadura, de açúcar, de tijolo, de cachaça e de farinha. De cana e de engenho não fala comigo não que eu entendo de tudo. Trabalhei pro Antônio Cassiano, na Aguada de Dentro. Depois, na beira do Rio São Francisco, na Vargem das Coroas. Ali tinha muita cana também. O açúcar era preto, escuro, açúcar mascavo. Depois que inventaram esse açúcar branco, acabou o açúcar daqui. Pra fazer tijolo, a gente mistura massa de mandioca, de laranja ou de mamão no melaço da rapadura. Pra rapadura o ponto é outro (...)Comunidade do Angico, município de Carinhanha, 26 de setembro de 1984."
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Fonte: SOUZA, C.M. José Evangelista de; ALMEIDA, C.M. João Carlos Deschamps de; Comunidades Rurais Negras Rio das Rãs - Bahia. Documentário. 1985, Ed. Impressão e Arte, Brasília/DF.

6 de julho de 2011

Homenagem póstuma ao Cel. João Duque

Em homenagem aos setenta e um anos de morte do Coronel João Duque (06/07/1940), transcrevemos o texto a seguir, recomendando a aquisição do livro abaixo anotado:

Era uma vez Carinhanha. (...) Em Manga a tropa permaneceu alguns dias. Descanso merecido. Todo o mundo estava praticamente estafado com a viagem desconfortável feita nos pequenos vapores. Mas, face no combate que se avizinhava entre os revoltosos mineiros e os legalistas baianos, estava no ar, também, uma guerra particular entre os "Coronéis" João Duque, por Minas Gerais e João Alkmim, pela Bahia. O primeiro mandava em Manga, São Francisco e nas terras adjacentes, o segundo, era senhor da Região de Carinhanha. Dessa forma, enquanto os "cabras" de João Duque engrossavam as fileiras do pessoal de Diamantina, os jagunços de João Alkmim ajudavam a milícia dos nortistas a consolidar sua posição.
E o "Antônio Nascimento" e o "São Francisco" retomam a viagem. Em breve chegam a Carinhanha. Apenas 55 quilômetros de distância. Aproximavam-se as horas turvas da tarde. Vinha o lusco-fusco. Momento inconvernient para um combate, para uma guerra. Mas para o soldado não há escolha. Ele não tem o poder de Josué, mandando o sol parar na eternidade. Ao primeiro pelotão cabe a ingrata tarefa de atacar frontalmente pela margem esquerda do São Francisco, colhendo a Cidade de Carinhanha pelo seu flanco direito e tendo, em compensação, de percorrer menor distância. O segundo pelotão deve atacar a povoação pela retarguarda, onde há um cemitério, envolvendo-a onde se afigura haver a maior resistência, uma espécie de fortim instalado na ingreja local. Quanto ao terceiro pelotão, tem por missão realizar o envolvimento completo da cidade, de modo a finalizar a operação caindo sobre o seu flanco esquerdo, em busca da margem do Rio São Francisco a jusante da cidadela, encerrando todos os seus defensores num anel de ferro e fogo.
Numa operação de tal envergadura exige-se plena harmonia de fogos e movimento. Contudo, infelizmente, os mineiros não conseguem esse objetivo. O 1º Pelotão logo entre em combate, pois já é visto pelo inimigo, que toma a iniciativa. E nesse agrupamento está o Soldado Manoel de Almeida com o seu F.M. de 15 tiros, e seus dois municiadores, baianos da gema. Legitimos. Faz parte do grupo de combate o Cabo Neftali da Cruz, que comanda a outra esquadra. Manoel de Almeida está com o pessoal sob o seu comando debaixo de um pé de pequizeiro. O inimigo não lhe dá sossego. Os baianos usam as terríveis balas "dun-dun". O que fazer? Ir para a frente procurando outra posição. Levantam-se todos. Correm. Passam por uma lagoa seca, que quase se constitui no seu túmulo. Balas levantam terra a seus pés. Atigem o outro lado. Mas nesse momento a sorte lhes favorece. O Soldado José Gonçalves comanda de maneira admirável uma esquadra de volteadores. Ele é um homem treinado. Foi do 5º Batalhão. Combateu na Revolução de 1924 e passou quase dois anos perseguindo a Coluna Prestes. Mas, a esquadra de tiro perde o contato com o comando do pelotão. Chegam a um valo de divisão de terras. Fazem fogo sobre um grupo de casas nas proximidades. O Soldado José Gonçalves continua a dar excelente ajuda. O fogo esmorece um pouco. Já é noite. Então das trincheiras dos comandados do "Coronel" João Alkmim sobe uma linda melodia. Cantam eles:
"Ola muié rendeira,
Olá muié rendá.
Tu me ensina a fazê renda,
Que eu te ensino a namorá"
E nas asas da "Muié Rendeira" vem um monte de insultos. Palavrões. E ameaças de na calada da noite virem apunhalar os mineiros em suas trincheiras. Mas a esquadra de tiro toma novo alento. Para a frente. Atingem esses homens as primeiras casas de Carinhanha. Começa a conquista definitiva. Embora exaustos realizam ataques com sua arma automática sobre as residências da praça principal.
Mas, eis que, quando mais atentos estavam sobre o movimento do inimigo, os três homens da esquadra de tiro recebem uma visita mais do que estranha. Acompanhado de um elemento do Terceiro Batalhão se apresenta diante deles um dos lugares tenentes de João Duque. Seu nome: Zezinho Dente de Ouro. Suas façanhas: entrar na cidade, sol a pino, abater reses e conduzir a carne para os seus homens sem que fosse visto ou pressentido. Ele tinha parte com o capeta. Cruz credo. E qual a missão de Zezinho Dente de Ouro? Servir de guia ao soldadinho Manoel de Almeida no restante do combate. Ia a mando de João Duque que conhecia seu ofício.
Também foi nesse instante que brotou em cena outro personagem extraordinário. Era o Soldado Carneiro Sales[Raul Carneiro Sales], apelidado de Cara D´Onça, a maior emborcadura [Corneteiro de escol, de lábios fortes e peito resistente, com cabacidade para produzir notas claras, gritantes e melodiosas.] de toda a Força Pública. Surge então uma idéia. "Dar a impressão aos baianos de que os mineiros dispunham de grande poderio bélico". O F. M. Hotkiss começa então a disparar rajadas sucessivas, como se fossem, não um, mas várias armas automáticas que atiravam ao mesmo tempo. Enquanto isso, o Cara de D´Onça ia fazendo os mais variados toques de corneta, cujos sons, se sobrepondo ao fragor do combate e o marulhar do rio, se ampliavam mil vezes na histórica noite sertaneja. Ora, ele mandava que uma fantástica e inexistente companhia contornasse pela esquerda. No momento seguinte, que várias seções de metralhadoras tomassem posição no terreno já conquistado. E para culminar, que um esquadrão de cavalaria corresse até à parte norte de Carinhanha, e de lá avançasse sobre a posição dos defensores retalhando, mantando, ceifando...
Mas o cano do FM já está incandescente de tanto atirar. De um lado Martiniano coloca os pentes de bala de maneira ininterrupta e sucessiva, ao passo que junto deles, sem máquina de carregar, o Soldado Antônio Gomes Ferreira municia os ditos pentes utilizando os dedos e os próprios dentes. Tem os lábios e as mãos em sangue.
Nesse instante, Zezinho Dente de Ouro aconselha a Manoel de Almeida a atacar pelo cemitério. Todos vão para lá. O FM continua a vomitar fogo. Cara D´Onça faz prodígios com sua corneta. A madrugada já vem chegando. Então o clarim comanda: "preparar para o assalto, preparar para o assalto". Dessa forma, os defensores são avisados que chegou a hora final. A seguir o corneteiro grita com o seu instrumento: "assalto, assalto". Há o assalto. E quando os mineiros chegam à posição dos nossos irmãos do norte, as encontram vazias. Eles haviam-se retirado ante a ameaça das muitas "companhias de infantaria, seções de metralhadoras e do esquadrão de cavalaria". E que somente existiam na imaginação fértil de Manoel de Almeida e nos beiços do Corneteiro Sales, o Cara D´Onça.
O resto pertence à história. João Duque, que havia sido banido de Carinhanha, é ali restaurado com plenos poderes pela revolução vitoriosa. E a tropa baiana que era comandada pelo Tenente Marino Brandão ainda encontram nos copos, cerveja, que, na pressa da fuga, não tiveram os retirantes tempo de beber. Havia também muitos comestíveis, inclusive animais assados.
Mas a missão do Terceiro Batalhão não está ainda cumprida. (...)

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ASSIS, Major Anatólio Alves de. Crônicas dos anos de ouro, Belo Horizonte, 1974, Ed. do autor, pgs 131/134.

8 de junho de 2011

Guarda Nacional

DECRETO nº 1.815 - de 30 de agosto de 1856.

Dá nova organisação á Guarda Nacional dos Municipios de Urubú, Macaubas, Monte Alto, e Carinhanha da Provincia da Bahia.

Attendendo á Proposta do Presidente da Provincia da Bahia; Hei por bem decretar o seguinte.

Art. 1.º Fica creado nos Municipios de Urubú, Macaubas, Monte Alto, e Carinhanha da Provincia da Bahia, hum Commando Superior de Guardas Nacionaes, o qual comprehederá no Municipio de Urubú um Esquadrão avulso com a designação de quatorze, hum Batalhão de Infantaria com oito Companhias com a designação de cem, do serviço activo, e huma Compahia avulsa de reserva com a designação de quinta; em Macaubas, hum Esquadrão avulso, com a numeração de quinze, hum Batalhão de Infantaria de oito Companhias com a numeração de cento e hum do serviço activo e huma Companhia da reserva com a designação de sexta; em Monte Alto, hum Esquadrão avulso com a designação de dezeseis, um Batalhão de Infantaria com oito Companhias com a numeração de cento e dous do serviço activo, e huma Companhia avulsa da reserva com a numeração de setima; e em Carinhanha hum Batalhão de Infantaria de seis companhias do serviço activo com numeração de cento e tres, e huma Companhia avulsa da reserva com a numeração de oitava.
Art. 2.º Os referidos Corpos terão as suas paradas nos lugares que lhes forem marcados pelo Presidente da Provincia na conformidade da Lei.
José Thomaz Nabuco de Araujo, do Meu Conselho,  Ministro e Secretário d´Estado dos Negócios da Justiça, assim o tenha entendido e faça executar. Palacio do Rio de Janeiro em trinta de agosto de mil oitocentos e cincoeta e seis, trigesimo quinto da independencia e do imperio. 
Com a rubrica de Sua Magestade o Imperador.
José Thomaz Nabuco de Araujo
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Fonte: Collecção da Leis do Imperio do Brazil, Vol. 17, parte 1, pgs 416/417

6 de junho de 2011

Dr. Catão Guerreiro de Castro

GUERREIRO DE CASTRO - Da Bahia: sobrenome de uma família estabelecida no Estado da Bahia, à qual pertence o Dr. Catão Guerreiro de Castro, nasc. por volta de 1842, BA. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco [1863]. Juiz Municipal da Comarca de Carinhanha, Bahia, em 1881. Foi pai de Thomaz Guerreiro de Castro, nascido por volta de 1869. Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco [1890]. Distinto advogado baiano, que produziu excelentes trabalhos forenses.
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Fonte: Colégio Brasileiro de Genealogia - http://www.cbg.org.br/arquivos_genealogicos_b_01.html

7 de maio de 2011

Carinhenha

Nos idos de 1838, numa terça-feira, 3 de julho, o Jornal o Eco, publica notícias a respeito do Império do Brasil, dando conta dos acontecimentos advidos de diversos lugares, entre eles, nada menos que a nossa querida Carinhanha, lá naquela época, denominada "Carinhenha". A notícia dá conta de que os povos do lugar estão arruinados pela ação dos bandidos que levam cereais, cavalos, gados quando encontram. Veja a seguir o trecho transcrito diretamente do referido jornal: "(...) Carinhenha 12 - Estes povos estão arruinados com as exacções dos facciosos. Levão cereaes, cavalgaduras, gados, e quando encontrão. Em Vistabella porque resistirão a seis facciosos veio força maior que levou mais de 20 $ cruzados."
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Fonte: O Eco. Jornal Critico, Litterario e Politico. Seção Notícias dos jornaes de Hespanha. terça-feira, 3 de julho de 1838. P. 4874. (livros eletrônicos google)

2 de abril de 2011

Dr. José Normanha de Oliveira

Natural de Carinhanha, nascido em 21 de abril de 1916, filho de João Moreira Normanha e d. Maria de Oliveira Normanha. Estudou no Colégio Arnaldo em Belo Horizonte. Diplomou-se em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em 1945. Exerceu, inicialmente, por cinco anos, medicina itinerante pelos sertões da Bahia e Minas Gerais. Fixou residência em Goiânia em 1950, onde passou a residir até sua morte. Radiologista por concurso, do antigo Instituto de Previdência Social - IAPC e posteriormente INPS, onde exerceu a especialidade como Chefe do Departamento de Radiologia do Hospital Geral por trinta e cinco anos, época em que se aposentou. Sócio-Fundador da Associação Médica de Goiás. Membro Titular da Academia Brasileira de Médicos Escritores; Membro Titular da Academia Goiana de Medicina; Membro Titular da Academia Goiana de Letras; Membro Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; Membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores; Sócio da União Brasileira de Escritores; Acadêmico correspondente da Academia Mineira de Medicina; Sócio honorário do Instituto Mineiro de História da Medicina e Membro Titular e Fundador da Academia Maçônica de Letras; Escritor e poeta. Publicou em 1985 "Pensamentos Vividos", crônicas e artigos litero-filosóficos. Em 1990, publico "Momentos e Versos de Ontem", sonetos clássicos e versos livres. Em 1995, publicou "À Margem do Tempo", artigos, crônicas e pequenos ensaios. Em 1998, publicou também, "Nos Caminhos da História", artigos, crônicas e pequenos ensaios biográficos. Faleceu no dia 05 de setembro de 2006, em Goiânia/GO.
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Fonte: Orelha do livro "Poeira do Tempo", do mesmo autor. Ed. 2005. (com alterações posteriores)

1 de março de 2011

Dr. Francolino José dos Santos


1903 – Nasce em Carinhanha, Bahia, o professor dr. Francolino José dos Santos, filho de Veríssimo José de Sousa e dona Catharina de Sousa Santos. Fez o curso primário em sua terra natal, o secundário em Belo Horizonte, em 1914, prosseguindo em Caitité em 1915 e 1916, terminado-o em Salvador, Bahia, em 1917. Diplomou-se em 1924 em odontologia pela Faculdade de Odontologia de Salvador, Bahia. Depois de ter atuação destacada em Januária, Minas, não só como profissional, como no que se refere à parte cultural, transferiu-se para Montes Claros, onde é professor e Diretor da Escola Normal Oficial desta cidade. Esforçado e culto, aqui fundou a Biblioteca Pública de que é Diretor; Presidente da Ala Cultural e Secretário da Associação Educação e Cultura de Montes Claros, vem trabalhando ativa e continuamente pela instrução. Tão assinalados serviços tem prestado às iniciativas culturais, que a Câmara Municipal conferiu-lhe o merecido diploma de Cidadão Montesclarense.

Foto: Álbum da família messias de macedo.
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Fonte:

6 de fevereiro de 2011

Hospital Regional de Carinhanha

DECRETO Nº 39.686, DE 7 DE AGÔSTO DE 1956.

Autoriza a Comissão do Vale do São Francisco a aceitar a doação de terreno de propriedade da Prefeitura Municipal de Carinhanha, no Estado da Bahia.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando das atribuições que lhe confere o artigo 87, número I, da Constituição,
DECRETA:

Artigo único. Fica autorizada a Comissão do Vale do São Francisco, criada pela lei nº 541, de 15 de dezembro de 1948, a aceitar, sem ônus para o Govêrno Federal, a doação que, por fôrça da Lei Municipal nº 76, de 30 de novembro de 1955, lhe foi feita pela Prefeitura Municipal de Carinhanha, de terreno, de seu patrimônio, em que foi construído o Hospital Regional de Carinhanha.
Rio de Janeiro, em 7 de agôsto de 1956; 135º da Independência e 68º da República.
JUSCELINO KUBITSCHEK
Nereu Ramos
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Fonte: Diário da União - DOU

30 de janeiro de 2011

Saudades

"(...) São dez minutos passados da meia-noite, isto é, dez minutos do dia 16 de julho de 1964, momento preciso em que, às luzes apagadas da Cidade, o navio atraca em pôrto firme.
Noite fria, de céu muito lindo, em terras baianas. O simpático e hospitaleiro casal Joaquim Borges de Araújo e sua bonita filha apresentam a sua Carinhanha à turma de Juiz de Fora acrescida de Beth e Paulinho. Também o piedoso sargento, de Belo Horizonte, nesta altura, não mais se desprega do grupo. A cidade é pequena, mas muito bonitinha e bem organizada. Ruas calçadas, com passeios modernos. Numa praça bem ajardinada está a igreja de São José, tôda pintada de nôvo. Mesmo a estas horas da manhã, o casal abre sua casa, em cuja sala, bem ampla, ao som de uma eletrola, o pessoal dança e se distrai. Descobrem os bons amigos um delicioso resfrêsco de abacaxi e outro de maracujá, que matam aquela sêde antiga de algo diferente, bom e substancioso.
A volta, pelas ruas escuras, foi uma algazarra sem fim. Brincadeiras interessantíssimas, inclusive a "centopéia", foram motivos de alegria e expansão da cordialidade fraterna com que se tem mantido o grupo. A hospitalidade do ilustre casal Joaquim Borges de Araujo, cuja fidalguia é tão cativante, foi a primeira impressão, unida ao encanto da cidade, do grande e brasileiro Estado da Bahia.
As duas e meia horas da madrugada, enfim, após tanta alegria, recolhe-se a turma no seio do "Barão de Cotegipe".
É possivelmente a noite mais interessante das que se tem passado desde o momento em que se enfrentou o grande "Rio da Unidade Nacional".
A estas horas é difícil um contato direto e persuasivo com a natureza baiana, com simplificado vem de ser o contato com a bonita e pequena Carinhanha, a qual, à meia-noite, já não mais ostenta sua luz elétrica porque esta é interrompida antes."
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BASTOS. Wilson de Lima, VIAGEM AO NORDESTE: Uma grande aventura, Pág. 80. Edições Paraíbanas, ano 1969.