6 de julho de 2011

Homenagem póstuma ao Cel. João Duque

Em homenagem aos setenta e um anos de morte do Coronel João Duque (06/07/1940), transcrevemos o texto a seguir, recomendando a aquisição do livro abaixo anotado:

Era uma vez Carinhanha. (...) Em Manga a tropa permaneceu alguns dias. Descanso merecido. Todo o mundo estava praticamente estafado com a viagem desconfortável feita nos pequenos vapores. Mas, face no combate que se avizinhava entre os revoltosos mineiros e os legalistas baianos, estava no ar, também, uma guerra particular entre os "Coronéis" João Duque, por Minas Gerais e João Alkmim, pela Bahia. O primeiro mandava em Manga, São Francisco e nas terras adjacentes, o segundo, era senhor da Região de Carinhanha. Dessa forma, enquanto os "cabras" de João Duque engrossavam as fileiras do pessoal de Diamantina, os jagunços de João Alkmim ajudavam a milícia dos nortistas a consolidar sua posição.
E o "Antônio Nascimento" e o "São Francisco" retomam a viagem. Em breve chegam a Carinhanha. Apenas 55 quilômetros de distância. Aproximavam-se as horas turvas da tarde. Vinha o lusco-fusco. Momento inconvernient para um combate, para uma guerra. Mas para o soldado não há escolha. Ele não tem o poder de Josué, mandando o sol parar na eternidade. Ao primeiro pelotão cabe a ingrata tarefa de atacar frontalmente pela margem esquerda do São Francisco, colhendo a Cidade de Carinhanha pelo seu flanco direito e tendo, em compensação, de percorrer menor distância. O segundo pelotão deve atacar a povoação pela retarguarda, onde há um cemitério, envolvendo-a onde se afigura haver a maior resistência, uma espécie de fortim instalado na ingreja local. Quanto ao terceiro pelotão, tem por missão realizar o envolvimento completo da cidade, de modo a finalizar a operação caindo sobre o seu flanco esquerdo, em busca da margem do Rio São Francisco a jusante da cidadela, encerrando todos os seus defensores num anel de ferro e fogo.
Numa operação de tal envergadura exige-se plena harmonia de fogos e movimento. Contudo, infelizmente, os mineiros não conseguem esse objetivo. O 1º Pelotão logo entre em combate, pois já é visto pelo inimigo, que toma a iniciativa. E nesse agrupamento está o Soldado Manoel de Almeida com o seu F.M. de 15 tiros, e seus dois municiadores, baianos da gema. Legitimos. Faz parte do grupo de combate o Cabo Neftali da Cruz, que comanda a outra esquadra. Manoel de Almeida está com o pessoal sob o seu comando debaixo de um pé de pequizeiro. O inimigo não lhe dá sossego. Os baianos usam as terríveis balas "dun-dun". O que fazer? Ir para a frente procurando outra posição. Levantam-se todos. Correm. Passam por uma lagoa seca, que quase se constitui no seu túmulo. Balas levantam terra a seus pés. Atigem o outro lado. Mas nesse momento a sorte lhes favorece. O Soldado José Gonçalves comanda de maneira admirável uma esquadra de volteadores. Ele é um homem treinado. Foi do 5º Batalhão. Combateu na Revolução de 1924 e passou quase dois anos perseguindo a Coluna Prestes. Mas, a esquadra de tiro perde o contato com o comando do pelotão. Chegam a um valo de divisão de terras. Fazem fogo sobre um grupo de casas nas proximidades. O Soldado José Gonçalves continua a dar excelente ajuda. O fogo esmorece um pouco. Já é noite. Então das trincheiras dos comandados do "Coronel" João Alkmim sobe uma linda melodia. Cantam eles:
"Ola muié rendeira,
Olá muié rendá.
Tu me ensina a fazê renda,
Que eu te ensino a namorá"
E nas asas da "Muié Rendeira" vem um monte de insultos. Palavrões. E ameaças de na calada da noite virem apunhalar os mineiros em suas trincheiras. Mas a esquadra de tiro toma novo alento. Para a frente. Atingem esses homens as primeiras casas de Carinhanha. Começa a conquista definitiva. Embora exaustos realizam ataques com sua arma automática sobre as residências da praça principal.
Mas, eis que, quando mais atentos estavam sobre o movimento do inimigo, os três homens da esquadra de tiro recebem uma visita mais do que estranha. Acompanhado de um elemento do Terceiro Batalhão se apresenta diante deles um dos lugares tenentes de João Duque. Seu nome: Zezinho Dente de Ouro. Suas façanhas: entrar na cidade, sol a pino, abater reses e conduzir a carne para os seus homens sem que fosse visto ou pressentido. Ele tinha parte com o capeta. Cruz credo. E qual a missão de Zezinho Dente de Ouro? Servir de guia ao soldadinho Manoel de Almeida no restante do combate. Ia a mando de João Duque que conhecia seu ofício.
Também foi nesse instante que brotou em cena outro personagem extraordinário. Era o Soldado Carneiro Sales[Raul Carneiro Sales], apelidado de Cara D´Onça, a maior emborcadura [Corneteiro de escol, de lábios fortes e peito resistente, com cabacidade para produzir notas claras, gritantes e melodiosas.] de toda a Força Pública. Surge então uma idéia. "Dar a impressão aos baianos de que os mineiros dispunham de grande poderio bélico". O F. M. Hotkiss começa então a disparar rajadas sucessivas, como se fossem, não um, mas várias armas automáticas que atiravam ao mesmo tempo. Enquanto isso, o Cara de D´Onça ia fazendo os mais variados toques de corneta, cujos sons, se sobrepondo ao fragor do combate e o marulhar do rio, se ampliavam mil vezes na histórica noite sertaneja. Ora, ele mandava que uma fantástica e inexistente companhia contornasse pela esquerda. No momento seguinte, que várias seções de metralhadoras tomassem posição no terreno já conquistado. E para culminar, que um esquadrão de cavalaria corresse até à parte norte de Carinhanha, e de lá avançasse sobre a posição dos defensores retalhando, mantando, ceifando...
Mas o cano do FM já está incandescente de tanto atirar. De um lado Martiniano coloca os pentes de bala de maneira ininterrupta e sucessiva, ao passo que junto deles, sem máquina de carregar, o Soldado Antônio Gomes Ferreira municia os ditos pentes utilizando os dedos e os próprios dentes. Tem os lábios e as mãos em sangue.
Nesse instante, Zezinho Dente de Ouro aconselha a Manoel de Almeida a atacar pelo cemitério. Todos vão para lá. O FM continua a vomitar fogo. Cara D´Onça faz prodígios com sua corneta. A madrugada já vem chegando. Então o clarim comanda: "preparar para o assalto, preparar para o assalto". Dessa forma, os defensores são avisados que chegou a hora final. A seguir o corneteiro grita com o seu instrumento: "assalto, assalto". Há o assalto. E quando os mineiros chegam à posição dos nossos irmãos do norte, as encontram vazias. Eles haviam-se retirado ante a ameaça das muitas "companhias de infantaria, seções de metralhadoras e do esquadrão de cavalaria". E que somente existiam na imaginação fértil de Manoel de Almeida e nos beiços do Corneteiro Sales, o Cara D´Onça.
O resto pertence à história. João Duque, que havia sido banido de Carinhanha, é ali restaurado com plenos poderes pela revolução vitoriosa. E a tropa baiana que era comandada pelo Tenente Marino Brandão ainda encontram nos copos, cerveja, que, na pressa da fuga, não tiveram os retirantes tempo de beber. Havia também muitos comestíveis, inclusive animais assados.
Mas a missão do Terceiro Batalhão não está ainda cumprida. (...)

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ASSIS, Major Anatólio Alves de. Crônicas dos anos de ouro, Belo Horizonte, 1974, Ed. do autor, pgs 131/134.

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