19 de julho de 2011

Potocas de Deraldinho

Homem simples do povo, baixinho, figura intrigante, funcionário público da Prefeitura de Carinhanha, exerceu cargo de fiscal municipal, foi também Delegado de Polícia (famoso Delegado calça curta), tido como um dos maiores contadores de potocas do Vale do São Fracisco. Entre tantas, ele contou essa numa roda de amigos:
Dizia ele todo sério aos amigos [todos atentos e ávidos para ouvi-lo] que, quando esteve em Belo Horizonte, foi a uma exposição de arte e lá estando, já na sala com várias quadros expostos, um cabra queria lhe convencer de que aquele quadro à sua frente era a obra de arte mais bela da exposição. Então ele virou-se para o cabra e foi logo dizendo:
-Isso aqui não é nada. Lá em Carinhanha, no sertão da Bahia, tem um artista que pinta muito melhor do que este quadro aqui. Você precisa conhecer o quadro que ele pintou no quarto dele.
O cabra curioso foi logo querendo saber mais do tal artista e sua obra de arte.
Deraldinho não se fez de arrogado e foi logo lhe contando da obra de arte do tal artista.
-Rapaz, ele pintou um "quarto de bode" na parede do quarto dele que é uma beleza. Uma obra de arte perfeita. Tão perfeita que a todos que ele mostrava o tal quadro pintado na parede do quarto dele logo iam dizendo: - Ah não! isso aqui é de verdade. Não estão vendo? É carne mesmo, passando a mão para tirar qualquer dúvida pela ilusão que causava às vistas.
Deraldinho arrematou dizendo que tal era a perfeição que o artista teve que cobrir de sal a pintura porque estava dando "varijeira". Até as moscas achavam que era mesmo carne.!!!
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Narrada por Dr. Antônio L. de Almeida em 19/07/2011.

14 de julho de 2011

Mudou alguma coisa de lá para cá?

Relatório em setenta e quatro páginas produzidas pelo Barão de Macaúbas em visita às Vilas da Província da Bahia no ano de 1855. Já naquela época ele relata o drama que vivem os professores de instrução primária nas Vilas de Urubú e Carinhanha. Assim consta de seu relatório:

"ORDENADOS DOS PROFESSORES DE FORA. 

A maior das difficuldades com que luctam os pobres Professores do centro da Província consiste no modo de receber seus ordenados, o que muitas vezes os colloca em circumstancias apertadissimas como tenho sido frequentes vezes de observar nas minhas diversas viagens.
Esses Professores, ordinariamente poucos relacionados vêem-se baldos de uma pessôa que nesta Cidade se encarregue da recepção dos seus ordenados; e quando alguma tenham, falta agora quem promova as precisas transacções para que lhes chegue ás mãos o seu dinheiro.
Quando em fins do anno passado estive nas Villas de Urubú e Carinhanha, ouvi dos respectivos Professores primarios queixas acerbas das privações que soffriam por falta de cobrança de seus ordenados; - e não achavam quem comprasse os seus attestados, mesmo com grande rebate!
O Professor de Carinhanha disse-me mais que despedira um dia os seus discípulos, dizendo-lhes que não podia dar aula por estar com fome(!!!) e não ter com que comprasse cousa alguma! - Ora, da Carinhanha, como do Urubú e outras muitas partes do centro, há muita poucas relações para esta Cidade.
Posso affirmar que raro será o Professor do centro que não venda os seus attestados com 10, 20 por cento (e até mais) de abatimento quando não se vêem reduzidos a receber em um armazem, ou em uma loja, a importância delles em generos carissimos, sem o que nenhum negociante se preste a encarregar-se da respectiva cobrança.
E um Professor que tem apenas 400 $ rs. de ordenado, o qual é tarde e á mas horas recebido, e quasi sempre com um abatimento de 20 por cento, póde achar-se contente de sua posição?
E um Professor, por mais decidida vocação que tenha para o magisterio, poderá julgar-se satisfeito de sua sorte, quando, depois de labutar uma manhãa inteira promovendo com todo esforço o adiantamento dos seus alumnos, não encontra um jantar salubre e restaurante, e ás vezes até nenhum?!! 
Oh! é preciso, é urgente, dar-se remedio a isto".
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Fonte: BORGES, Abílio Cesar (Barão de Macaúbas). Relatório sobre a instrucção pública da Província da Bahia. 1856. pgs. 70/71.

9 de julho de 2011

Severiana Maria da Conceição

Com 93 anos de idade, em 1984. Era conhecida como Sivi do Angico. Deu esta entrevista em 1984. Nasceu em 1903 e morreu em 1987. É assim que descreve a história deste pedação de chão, a mulher mais velha encontrada naquela época, no Patrimônio do Angico, município de Carinhanha.
"Eu nasci na boca da Barra da Parateca. Estou bastante velha, já conheci meio mundo e meio fundo. Quando nasci, Carinhanha só tinha a igreja de São José e a feira de negócios. O Comércio que tinha era umas casinhas ao lado da Igreja, na Praça. Na briga do Cel. João Duque com o Dr Josefino Moreira de Castro, eu tinha 16 anos de idade. Este barulho foi em 1919.
No apaziguamento, eles arranjaram idade pra todo mundo, 'modi' arranjar título de eleitor. Todo mundo teve de usar umas divisas pra entrar no comércio. Era para o povo não brigar mais, pra gente saber se era da parte de um ou de parte de outro. A de João Duque era que nem um ferro. A de Dr. Josefino era no chapéu. O povo chamava de divisa.
João Duque morava era no Itacarambó. Josefino morava na Carinhanha mesmo. Os dois brigavam para ver quem tomava o comércio. Depois que acabou a briga, ajuntou o povo todo pra apaziquar. Arranjaram assinamento de todo mundo dejunto da igreja de São José porque tinha a igrejinha de Santo Antônio, lá atrás também. Fizeram a festa foi na Malhada e assim acabou as brigas. O povo todo brigava: uns do lado do Dr. Josefino e outros do lado do Cel. João Duque.
Ao lado da igreja morava Geminiano. Mas era da igrejinha de Santo Antônio, lá na rua Santo Antônio. Por ali morava também João Pacheco, Doutor, Coronel Chico Timóteo; Dr. Josefino morava na praça, João Alkmim, Tenente Vital. Padre Júlio era o dono da igreja de Carinhanha. Nesse tempo Pe. Júlio gostava de dançar nas festas. Dançava segurando nas mãos das moças. Ele tinha vários filhos em Carinhanha, também.
A escravidão era nas Macaúbas, no Arraiá de Rebello, em São Sebastião do Rio do Pires. Conheci muita gente da escravidão: Joaquim, Sá Germana, o véio Mané Galinha, um homem por nome de João, irmão de Bastiana, mulher de Manuel. Eles vieram de lá das Macaúbas. Conheci o véio Inacim. Tinha o Pedro Nagô e Luís Chifre em Carinhanha. Aqui, eles moravam na Fazenda Brejo. Tinha o Brejo de Cima de Luis Pereira Pinto e tinha o Brejo de Baixo de Janjão, irmão de Luis Pereira Pinto. Joaquim e Germana eram escravos de Luis Pereira. Esse Luis era irmão do Major Olegário Pereira Pinto. Os negros forraram. Mas Luis não quis deixar os negros sairem do cativeiro.
Na escravidão, tinha aqui, o povo das Salinas e o povo do Açúcar. Fazia sal de cozinha que dava na terra, minado, minerosa. Botava água naquela terra e rumava fogo. Secava e dava sal da terra, neste trecho de sertão. Por isto é que ficou com o nome de Fazenda Salinas. O outro sal era de pedra e chamava "Marca Touro". A minha mãe era da Fazenda Salinas, no Espírito Santo, aqui nas Três Ilhas. Na Vargem da Coroa, fazia era açúcar. Era o povo do Açúcar. Tinha muita plantação de cana-de-açúcar nestes arredores. Nesse lugar, chamado Espírito Santo, era a fazenda de Agostinho Fonseca. O meu povo não foi mais escravo não. Meus pais foram José Pereira de Araújo e Ana Rosa da Conceição. Meus irmãos era Felicida, Rufina, Maria, Joaquim, Ana. Era o povo dos Bambina. Eu casei com Abílio. Depois de dez anos de casada, perdi o marido. Não tive nhemuma cria. Só tenho filho de pegação. Estes eu tenho aos montes presse Brasil afora todo. Sempre trabalhando, conheci e plantei muita cana-de-açúcar neste sertão. Cada de cachaça. Já fui fazendeira de rapadura, de açúcar, de tijolo, de cachaça e de farinha. De cana e de engenho não fala comigo não que eu entendo de tudo. Trabalhei pro Antônio Cassiano, na Aguada de Dentro. Depois, na beira do Rio São Francisco, na Vargem das Coroas. Ali tinha muita cana também. O açúcar era preto, escuro, açúcar mascavo. Depois que inventaram esse açúcar branco, acabou o açúcar daqui. Pra fazer tijolo, a gente mistura massa de mandioca, de laranja ou de mamão no melaço da rapadura. Pra rapadura o ponto é outro (...)Comunidade do Angico, município de Carinhanha, 26 de setembro de 1984."
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Fonte: SOUZA, C.M. José Evangelista de; ALMEIDA, C.M. João Carlos Deschamps de; Comunidades Rurais Negras Rio das Rãs - Bahia. Documentário. 1985, Ed. Impressão e Arte, Brasília/DF.

6 de julho de 2011

Homenagem póstuma ao Cel. João Duque

Em homenagem aos setenta e um anos de morte do Coronel João Duque (06/07/1940), transcrevemos o texto a seguir, recomendando a aquisição do livro abaixo anotado:

Era uma vez Carinhanha. (...) Em Manga a tropa permaneceu alguns dias. Descanso merecido. Todo o mundo estava praticamente estafado com a viagem desconfortável feita nos pequenos vapores. Mas, face no combate que se avizinhava entre os revoltosos mineiros e os legalistas baianos, estava no ar, também, uma guerra particular entre os "Coronéis" João Duque, por Minas Gerais e João Alkmim, pela Bahia. O primeiro mandava em Manga, São Francisco e nas terras adjacentes, o segundo, era senhor da Região de Carinhanha. Dessa forma, enquanto os "cabras" de João Duque engrossavam as fileiras do pessoal de Diamantina, os jagunços de João Alkmim ajudavam a milícia dos nortistas a consolidar sua posição.
E o "Antônio Nascimento" e o "São Francisco" retomam a viagem. Em breve chegam a Carinhanha. Apenas 55 quilômetros de distância. Aproximavam-se as horas turvas da tarde. Vinha o lusco-fusco. Momento inconvernient para um combate, para uma guerra. Mas para o soldado não há escolha. Ele não tem o poder de Josué, mandando o sol parar na eternidade. Ao primeiro pelotão cabe a ingrata tarefa de atacar frontalmente pela margem esquerda do São Francisco, colhendo a Cidade de Carinhanha pelo seu flanco direito e tendo, em compensação, de percorrer menor distância. O segundo pelotão deve atacar a povoação pela retarguarda, onde há um cemitério, envolvendo-a onde se afigura haver a maior resistência, uma espécie de fortim instalado na ingreja local. Quanto ao terceiro pelotão, tem por missão realizar o envolvimento completo da cidade, de modo a finalizar a operação caindo sobre o seu flanco esquerdo, em busca da margem do Rio São Francisco a jusante da cidadela, encerrando todos os seus defensores num anel de ferro e fogo.
Numa operação de tal envergadura exige-se plena harmonia de fogos e movimento. Contudo, infelizmente, os mineiros não conseguem esse objetivo. O 1º Pelotão logo entre em combate, pois já é visto pelo inimigo, que toma a iniciativa. E nesse agrupamento está o Soldado Manoel de Almeida com o seu F.M. de 15 tiros, e seus dois municiadores, baianos da gema. Legitimos. Faz parte do grupo de combate o Cabo Neftali da Cruz, que comanda a outra esquadra. Manoel de Almeida está com o pessoal sob o seu comando debaixo de um pé de pequizeiro. O inimigo não lhe dá sossego. Os baianos usam as terríveis balas "dun-dun". O que fazer? Ir para a frente procurando outra posição. Levantam-se todos. Correm. Passam por uma lagoa seca, que quase se constitui no seu túmulo. Balas levantam terra a seus pés. Atigem o outro lado. Mas nesse momento a sorte lhes favorece. O Soldado José Gonçalves comanda de maneira admirável uma esquadra de volteadores. Ele é um homem treinado. Foi do 5º Batalhão. Combateu na Revolução de 1924 e passou quase dois anos perseguindo a Coluna Prestes. Mas, a esquadra de tiro perde o contato com o comando do pelotão. Chegam a um valo de divisão de terras. Fazem fogo sobre um grupo de casas nas proximidades. O Soldado José Gonçalves continua a dar excelente ajuda. O fogo esmorece um pouco. Já é noite. Então das trincheiras dos comandados do "Coronel" João Alkmim sobe uma linda melodia. Cantam eles:
"Ola muié rendeira,
Olá muié rendá.
Tu me ensina a fazê renda,
Que eu te ensino a namorá"
E nas asas da "Muié Rendeira" vem um monte de insultos. Palavrões. E ameaças de na calada da noite virem apunhalar os mineiros em suas trincheiras. Mas a esquadra de tiro toma novo alento. Para a frente. Atingem esses homens as primeiras casas de Carinhanha. Começa a conquista definitiva. Embora exaustos realizam ataques com sua arma automática sobre as residências da praça principal.
Mas, eis que, quando mais atentos estavam sobre o movimento do inimigo, os três homens da esquadra de tiro recebem uma visita mais do que estranha. Acompanhado de um elemento do Terceiro Batalhão se apresenta diante deles um dos lugares tenentes de João Duque. Seu nome: Zezinho Dente de Ouro. Suas façanhas: entrar na cidade, sol a pino, abater reses e conduzir a carne para os seus homens sem que fosse visto ou pressentido. Ele tinha parte com o capeta. Cruz credo. E qual a missão de Zezinho Dente de Ouro? Servir de guia ao soldadinho Manoel de Almeida no restante do combate. Ia a mando de João Duque que conhecia seu ofício.
Também foi nesse instante que brotou em cena outro personagem extraordinário. Era o Soldado Carneiro Sales[Raul Carneiro Sales], apelidado de Cara D´Onça, a maior emborcadura [Corneteiro de escol, de lábios fortes e peito resistente, com cabacidade para produzir notas claras, gritantes e melodiosas.] de toda a Força Pública. Surge então uma idéia. "Dar a impressão aos baianos de que os mineiros dispunham de grande poderio bélico". O F. M. Hotkiss começa então a disparar rajadas sucessivas, como se fossem, não um, mas várias armas automáticas que atiravam ao mesmo tempo. Enquanto isso, o Cara de D´Onça ia fazendo os mais variados toques de corneta, cujos sons, se sobrepondo ao fragor do combate e o marulhar do rio, se ampliavam mil vezes na histórica noite sertaneja. Ora, ele mandava que uma fantástica e inexistente companhia contornasse pela esquerda. No momento seguinte, que várias seções de metralhadoras tomassem posição no terreno já conquistado. E para culminar, que um esquadrão de cavalaria corresse até à parte norte de Carinhanha, e de lá avançasse sobre a posição dos defensores retalhando, mantando, ceifando...
Mas o cano do FM já está incandescente de tanto atirar. De um lado Martiniano coloca os pentes de bala de maneira ininterrupta e sucessiva, ao passo que junto deles, sem máquina de carregar, o Soldado Antônio Gomes Ferreira municia os ditos pentes utilizando os dedos e os próprios dentes. Tem os lábios e as mãos em sangue.
Nesse instante, Zezinho Dente de Ouro aconselha a Manoel de Almeida a atacar pelo cemitério. Todos vão para lá. O FM continua a vomitar fogo. Cara D´Onça faz prodígios com sua corneta. A madrugada já vem chegando. Então o clarim comanda: "preparar para o assalto, preparar para o assalto". Dessa forma, os defensores são avisados que chegou a hora final. A seguir o corneteiro grita com o seu instrumento: "assalto, assalto". Há o assalto. E quando os mineiros chegam à posição dos nossos irmãos do norte, as encontram vazias. Eles haviam-se retirado ante a ameaça das muitas "companhias de infantaria, seções de metralhadoras e do esquadrão de cavalaria". E que somente existiam na imaginação fértil de Manoel de Almeida e nos beiços do Corneteiro Sales, o Cara D´Onça.
O resto pertence à história. João Duque, que havia sido banido de Carinhanha, é ali restaurado com plenos poderes pela revolução vitoriosa. E a tropa baiana que era comandada pelo Tenente Marino Brandão ainda encontram nos copos, cerveja, que, na pressa da fuga, não tiveram os retirantes tempo de beber. Havia também muitos comestíveis, inclusive animais assados.
Mas a missão do Terceiro Batalhão não está ainda cumprida. (...)

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ASSIS, Major Anatólio Alves de. Crônicas dos anos de ouro, Belo Horizonte, 1974, Ed. do autor, pgs 131/134.