11 de dezembro de 2002

Delci

Delci, meu irmão, você não morreu! Não posso acreditar que o trágico acidente destruira para sempre a sua vida. Não posso conceber a vida como algo existente tão somente no corpo, mas, precisamente, na sua própria fonte - a alma. Esta como ser real, sobrevive a tudo, é indestrutível; o corpo, fonte ancilar de tantas misérias e dores, não; perece. O prolongamento da vida, depois da morte biológica do corpo, não é uma ideia vaga, uma probabilidade, é certeza absoluta. O homem, como já dito, é composto de corpo e espírito. O espírito é o ser principal, o ser da razão, o ser intelignete; o corpo é o invólucro material que reveste, temporariamente, o espírito para cumprimento da sua missão no planeta Terra, onde o homem executa diuturnamente o seu trabalho de evolução. A morte abrupta dos batimentos cardíacos para ensejar o reingresso do espírito no seu mundo - o mundo dos desencarnados. Com a morte biológica, é verdade, o corpo será destruído; os abutres consomem-no. Mas esta destruição só pode ser entendida como construção de novas vidas. O corpo é matéria e, como tal, servirá de alimentos para outros seres - os abutres. Os alimentos são necessários à vida, de modo que, na verdade, vida só pode ser compreendida dentro de uma insular cadeia que, com o inexorável lógica dos fatos e da observação, leva-me a afirmar que vida e morte são apenas duas forças antagônicas que buscam o equilíbrio. Esse equilíbrio só coexiste com as duas forças - a positiva e a negativa. E coexistindo o equilibrio nas duas forças, o heterogêneo trasnforma-se no homogêneo, formando-se um todo, que é o ser - o ponto central, a arena de infinitas sutilezas - a miniatura divina, feito e refeito, numa constante e colossal transformação. Vigoraremos, ainda aqui na Terra, depois de mortos e consumidos, como seivas, vivificantes e vivificando a outros seres, posto que daremos vida a outros seres... se não servirmos, apenas, de adubo para animar as plantas, inzuzindo-as a lançar botões e flores para embelezar a natureza e anestesiar os corações com o seu perfume silvestre. Igual à fotossíntese, de seiva bruta, transformamos em seiva elaborada. Viveremos também além do túmulo, no espaço, vencendo as distâncias das longínquas querências com a rapidez do pensamento, testemunhando a prática de atos humanos, tais como a bondade, a maldade, a doçura, a violência, a benevolência, a caridade, a sinceridade, a fraqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, enfim, tudo que pratica o homem de bem ou o homem perverso; e, na nossa forma fluídica, ficaremos aguardando as ordens do grande Geômetra do Universo para eventual socorro aos necessitados deste ignóbil Planta! Eis aí, meu irmão, o encanto da vida nas duas dimensões planetárias - a Terra e no Infinito! Agora, quando já cessados os calafrios da morte, entreolando a sua argêntea face num processo de apurada mentalização, impede dizer-lhe da sua felicidade. Vejo-a transbordando de felicidade em razão do progresso alcançado aqui na Terra. Afeito ao trabalho em prol da humanidade aqui na Terra, sem egoísmo, em busca da verdadeira fraternidade, sem orgulho, na prática da verdeira igualdade, sem ambição ou procurando oprimir ou reprimir o fraco, você, meu irmão, construiu o seu castelo celeste onde morará. Vocè é feliz porque, com o corpo chagado pela luta renhida contra os males que corroem a humanidade, está com a consciência tranquila e sente que cumpriu o seu dever. Penso com Ariston, o grande filósofo de Quio, cujos ensinamentos infelizmente não gozam da popularidade que merece. Ele prova irretorquivelmente que a felicidade só pode ser encontrada na virtude e nunca no prazer. E virturde você tinha às sobras. Logo você está feliz! E se você está feliz não há razão para eu ficar trinste, lamentando a sua morte biológica; não há razão para blasfemar o trágico acontecimento ocorrido naquele funesto nove de dezembro. Eu devo refletir melhor, para fincar minhas palavras com propriedade neste texto. Pelas evidências que se juntam, formando um silogismo lógico, não houve nada de funeste naquele dia; houve, sim, o despertar da vida na imensidão cerúlea com a repleta luminosidade do empíreo. Que beleza! Zênite, zênite, zênite! Quanto fascínio me enche a alma! Festejarei aquele dia acendendo archotes e entoando um hino aos querubins, certo de estar comemoraando, com pompas e galas, a celebração da vida que é eterna. Entrarei, quando retornar naquele Templo da virtude e da Razão que você empenhou em construir, animado pelas suas forças, certo de que o homem não morre e convicto de que você se encontra sentado no Oriente. Quero agora segredar as minhas palavras. Porém, antes de fazê-lo, resta-me dizer-lhe adeus. Adeus, meu irmão. Agradeço-lhe pela sua boa amizade e por tudo bom que fez em prol da humanidade. Esse dever você soube cumprir - e cumpriu-o de forma magistral como um verdadeiro mestre; cumpriu-o não para ser agradecido, eu sei, mas para cumprir o seu dever. E é justamente por isso que você merece ser agradecido. Mas ao lado dos meus agradecimentos, que não bastam, peço a Deus que lhe dê a merecida recompensa, reservando um bom lugar para a sua residência celeste. Adeus, meu irmão e até um dia...
Carinhanha, 11 de dezembro de 2002. José Bonifácio de Oliveira Lima.
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Homenagem póstuma