9 de julho de 2011

Severiana Maria da Conceição

Com 93 anos de idade, em 1984. Era conhecida como Sivi do Angico. Deu esta entrevista em 1984. Nasceu em 1903 e morreu em 1987. É assim que descreve a história deste pedação de chão, a mulher mais velha encontrada naquela época, no Patrimônio do Angico, município de Carinhanha.
"Eu nasci na boca da Barra da Parateca. Estou bastante velha, já conheci meio mundo e meio fundo. Quando nasci, Carinhanha só tinha a igreja de São José e a feira de negócios. O Comércio que tinha era umas casinhas ao lado da Igreja, na Praça. Na briga do Cel. João Duque com o Dr Josefino Moreira de Castro, eu tinha 16 anos de idade. Este barulho foi em 1919.
No apaziguamento, eles arranjaram idade pra todo mundo, 'modi' arranjar título de eleitor. Todo mundo teve de usar umas divisas pra entrar no comércio. Era para o povo não brigar mais, pra gente saber se era da parte de um ou de parte de outro. A de João Duque era que nem um ferro. A de Dr. Josefino era no chapéu. O povo chamava de divisa.
João Duque morava era no Itacarambó. Josefino morava na Carinhanha mesmo. Os dois brigavam para ver quem tomava o comércio. Depois que acabou a briga, ajuntou o povo todo pra apaziquar. Arranjaram assinamento de todo mundo dejunto da igreja de São José porque tinha a igrejinha de Santo Antônio, lá atrás também. Fizeram a festa foi na Malhada e assim acabou as brigas. O povo todo brigava: uns do lado do Dr. Josefino e outros do lado do Cel. João Duque.
Ao lado da igreja morava Geminiano. Mas era da igrejinha de Santo Antônio, lá na rua Santo Antônio. Por ali morava também João Pacheco, Doutor, Coronel Chico Timóteo; Dr. Josefino morava na praça, João Alkmim, Tenente Vital. Padre Júlio era o dono da igreja de Carinhanha. Nesse tempo Pe. Júlio gostava de dançar nas festas. Dançava segurando nas mãos das moças. Ele tinha vários filhos em Carinhanha, também.
A escravidão era nas Macaúbas, no Arraiá de Rebello, em São Sebastião do Rio do Pires. Conheci muita gente da escravidão: Joaquim, Sá Germana, o véio Mané Galinha, um homem por nome de João, irmão de Bastiana, mulher de Manuel. Eles vieram de lá das Macaúbas. Conheci o véio Inacim. Tinha o Pedro Nagô e Luís Chifre em Carinhanha. Aqui, eles moravam na Fazenda Brejo. Tinha o Brejo de Cima de Luis Pereira Pinto e tinha o Brejo de Baixo de Janjão, irmão de Luis Pereira Pinto. Joaquim e Germana eram escravos de Luis Pereira. Esse Luis era irmão do Major Olegário Pereira Pinto. Os negros forraram. Mas Luis não quis deixar os negros sairem do cativeiro.
Na escravidão, tinha aqui, o povo das Salinas e o povo do Açúcar. Fazia sal de cozinha que dava na terra, minado, minerosa. Botava água naquela terra e rumava fogo. Secava e dava sal da terra, neste trecho de sertão. Por isto é que ficou com o nome de Fazenda Salinas. O outro sal era de pedra e chamava "Marca Touro". A minha mãe era da Fazenda Salinas, no Espírito Santo, aqui nas Três Ilhas. Na Vargem da Coroa, fazia era açúcar. Era o povo do Açúcar. Tinha muita plantação de cana-de-açúcar nestes arredores. Nesse lugar, chamado Espírito Santo, era a fazenda de Agostinho Fonseca. O meu povo não foi mais escravo não. Meus pais foram José Pereira de Araújo e Ana Rosa da Conceição. Meus irmãos era Felicida, Rufina, Maria, Joaquim, Ana. Era o povo dos Bambina. Eu casei com Abílio. Depois de dez anos de casada, perdi o marido. Não tive nhemuma cria. Só tenho filho de pegação. Estes eu tenho aos montes presse Brasil afora todo. Sempre trabalhando, conheci e plantei muita cana-de-açúcar neste sertão. Cada de cachaça. Já fui fazendeira de rapadura, de açúcar, de tijolo, de cachaça e de farinha. De cana e de engenho não fala comigo não que eu entendo de tudo. Trabalhei pro Antônio Cassiano, na Aguada de Dentro. Depois, na beira do Rio São Francisco, na Vargem das Coroas. Ali tinha muita cana também. O açúcar era preto, escuro, açúcar mascavo. Depois que inventaram esse açúcar branco, acabou o açúcar daqui. Pra fazer tijolo, a gente mistura massa de mandioca, de laranja ou de mamão no melaço da rapadura. Pra rapadura o ponto é outro (...)Comunidade do Angico, município de Carinhanha, 26 de setembro de 1984."
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Fonte: SOUZA, C.M. José Evangelista de; ALMEIDA, C.M. João Carlos Deschamps de; Comunidades Rurais Negras Rio das Rãs - Bahia. Documentário. 1985, Ed. Impressão e Arte, Brasília/DF.

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