15 de outubro de 2009

Seu Atanásio conta...

Os barulhos

“Fui chamado também pra brigar ao lado de João Duque: Eu não sou doido, não sei de nada! Zuza, meu irmão, queria ir, mas Tiano Lacerda e João Gusmão não deixou. Zuza, nesse tempo, era vaqueiro de Tiano. João Duque que reclamou com ele: ‘Pode deixar! Esses barriga verde não sabe brigar, não adianta nada!.’ Tiano retrucou com João Duque: ‘Não João, não é isso não! Não vamos judiar de crianças! Esses meninos são crianças ainda! Padrinho tem que proteger afilhado, pro afilhado ser fiel ao padrinho. Não é assim que o nosso Padim Cícero ensinava? Não é assim que a gente faz com o Bom Jesus da Lapa? A gente fica devoto dele pra ele proteger a gente; se não ficar fiel à proteção dele, ele castiga, não é mesmo?’ Tiano era padrinho de Zuza, enquanto os meus padrinhos eram Arquimino e José Mamoneira. Nós era peão de João Gusmão, criados todos juntos; estava sempre passando pelo Vale do Cochá. Manga pra mim virou caminho de roça...”
“Mas uma vez tive de pegar na carabina. Isso foi lá no Riacho de Santana. Nós tava precisando de remédio; só lá que encontrava esse tal remédio. João Duque deu um bilhete pra levar pro farmacêutico. Cheguei e encontrei todo mundo entrincheirado em volta da cidade; até o farmacêutico! Ele me disse: ‘Como é que eu posso atender você? Tá perigoso, vai pipocar tiro a qualquer hora aqui e não posso deixar essa carabina do Licurgo!’ Eu então resolvi o caso: ‘Pode ir, eu fico de prontidão com essa carabina até ocê voltar. Eu não posso é voltar sem esse remédio” Ocê não vai negar um pedido do Coronel João Duque; ele também é de patente, você sabe disso.’ Ele foi e voltou, mas não precisou de trocar tiro. Devolvi a carabina e escapuli no meu cavalo alazão, saí logo daquela trinceira de gente doída!”
“Eu já tinha comprado a terra de Agostinho Fonseca, quando o Véio Leopoldino chegou para a Fazenda Placa – Boa Esperança -. Ele comprou as terras da família de Evangelista, aquele mesmo que saiu esguiritado. Um dia, apareceu urubu voando, sobrevoando, cheirando alguma carniça. Nós saiu fora só pra ver se era algum gado morto! Cheguei e fui espiando bem, mas meu cabelo arrepiou todo na cabeça. Uma coisa me deu medo, mas homem não pode ter medo; fingi coragem e empurrei o meu corpo pra perto: um defunto já fedendo, comigo pelos urubus, dentro do meu terreno, na lagoa do Pajeú! Pra trás eu corri sem medo, chamei Benedito Preto. Ele logo reconheceu: ‘É o corpo do Véio Leopoldino’ Já fazia dias! O corpo tinha sido arrastado pra dentro do meu terreno – lá estava a marca do mato amassado – foi jogado pra riba da cerca de espinha de pexe.
Raimundo, meu filho, tinha comprado uma corda de doze braças e trabalhava na fazenda de Leopoldino. Essa corda apareceu suja de sangue, pendurada no torno da parede da minha casa. A polícia chegou e foi logo falando:
- O assassino está por aqui mesmo! Por que essa corda suja de sangue, aí, pendurada no torno? O corpo estava dentro do seu terreno, o senhor e seus filhos vão ter que explicar!
- É sangue de bezerro! Garantiu Raimundo.
- Não é não, aparteou a polícia. É sangue de gente mesmo, já foi verificado!
- Mas o senhor não está vendo que ele foi amarrado com corda e arrastado pra dentro do meu quintal, jogando pro riba de minha cerca? Vocês não estão vendo o rastro do corpo no mato?
- É seu Atanásio, ocê e seu filho vão ficar guardados, na cadeia, até esclarecer essa morte. Raimundo então foi explicar:
- Seu Tenente, eu trabalho com o vaqueiro do Leopoldino, na fazenda; saí pra dar sal pro gado, mas o quarto estava trancado com chave; fui então, pra buscar a chave, na casa de Preto, em Caio Martins . Mas Preto não deixou, ele mesmo saiu e foi. Nessa enrola de vai pra lá e vem pra cá, ele trocou a minha corda, igualzinha a dele e do mesmo tamanho: doze braças! É a corda dele que apareceu suja de sangue.
Preto estava sempre orientando Raimundo pra falar coisas trocadas pra polícia. A mãe sempre recomendando: ‘Ocê só fala a verdade, meu filho! Quem fala a verdade não merece castigo!.’
Tenente Joaquim e a mulher montaram uma armadilha pra descobrir o assassino. Preto também já estava guardado, como suspeito. Eles foram a Caio Martins, na casa de Preto e jogaram sotaque pra mulher dele:
- Nós veio aqui buscar ocê, Maria, e seus filhos, porque Preto está preso e é ele mesmo que matou Leopoldino. Nós já descobriu.
A mulher indagou da polícia:
- Mas foi ele mesmo que confessou?
- Nós descobriu, emendou o Tenente.
- Bem que eu falei pra ele que não fizesse isso não!
- Então, quer dizer que foi ele mesmo? A senhora confirma tudo?!
- Foi ele mesmo, eu já disse tudo!
Isto aconteceu em 1962. A polícia judiou muito dele. Levou na Fazenda Algemado batendo, espancando e obrigando a mostrar onde estava os sapatos de Leopoldino. Eles só achou um pé de sapato, o outro ficou perdido; teve de mostrar também onde tinha escondido o dinheiro. Preto era um cabra mau de Vitória da Conquista; naquele sofrimento todo ainda falou pra polícia:
- A gente não bate em homem algemado não! É covardia! É feio homem apanhar! Pode que ocês não mata logo?
Ficou muito tempo preso em Carinhanha; teve até trabalhando forçado pra Prefeitura, vigiado pela polícia. Hoje, quem mata é que fica bem, quem morre é que perde a vida! Leopoldino tinha vindo de Salvador, a esposa não quis acompanhar, por isso arranjou outra mulher aqui; foi só pra chorar por ele... Mas essa história não ficou bem contada não. Leopoldino tinha inimigos na polícia de Carinhanha. Ele desfeiteou as autoridades na inauguração da ponte da Placa. Guardou leite pra distribuir pros políticos no dia da inauguração, mas não veio ninguém. Ficou esperando o dia inteiro debaixo de sol quente. Escreveu desaforos pros homens de Carinhanha nos mntes de areia: ‘Cachorros do Governo’ Depois derramou o leite todo em cima da ponte novinha para a inauguração. A gente desconfia que Preto tinha sido mandado. Mas ninguém protegeu Preto. A polícia fez foi judiar muito dele.”

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SOUZA, Pe. José Evangelista de – Do Rio Carinhanha à Serra do Ramalho, pg 39/40, 1985.

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