24 de outubro de 2009

Passagem de Teodoro Sampaio em 1879 por Carinhanha

Da Carinhanha a Monte Alto

"De regresso da cachoeira de Pirapora até onde nos levara o exame da navegação do rio S. Francisco, chegamos à Carinhanha a 22 de dezembro de 1879, onde devia eu apartar-me da comissão, cumprindo ordem do meu ilustre chefe,Milnor Roberts, para dali fazer a travessia dos sertões baianos, estendendo o quanto possível o meu trajeto pela Chapada Diamantina, cujos caracteres geográficos muito desejávamos conhecer.
Feitas as despedidas, saltei para terra no meio do muito povo reunido no alto da barca e vi bem depressa desaparecer na primeira curva do rio o penacho de fumo do vapor Presidente Dantas, assinalado por entre as árvores marginais a carreira que levava o velho barco navegando águas abaixo.
Fiquei só no meio daquela gente anarquizada e não pensei no perigo que daí pudesse advir. E, contudo, o perigo era bem de recear, como depois verifiquei.
A Carinhanha estava de fato em poder dos assaltantes da Januária, que para aí se recolheram, depois de sua vitória tão fácil quão escandalosa. Reinava na vila um terror pânico. Quem tinha o que perder, entrincheirava-se em casa depois de retirar a família às ocultas para algum sítio distante.
As autoridades sumiram-se, e os criminosos e assassinos dominavam.
O Capitão Francisco de Magalhães, com sua gente armada e com os despojos de sua recente campanha, estava aqui acampado enquanto o seu aliado, Manoel Tavares de Sá, por alcunha o Neco, preferira ficar com suas forças na outra margem, na povoação da Malhada, que avistávamos rio acima.
Coisa curiosa. Toda essa gente, formada em alas numa e noutra margem, recebeu-nos com foguetes e aclamação ao chegarmos. Indagando do motivo, informaram nos que tinham apreciado muito a nossa correção no teatro da luta, cumprindo com a palavra dada de não intervir por nenhuma das parcialidades.
Apesar disso, não me achei seguro no meio daquela gente desenfreada. Não me sentia intimidado, mas envergonhado; e, pois, procurei apressar a minha partida, dando os passos para a compra dos animais e para contratar um camarada, o que, no entanto, não era fácil no meio que reinava.
Ajudava-me diligentemente o meu hóspede, o sr. Antônio Joaquim Alves, e o bom vigário, padre João Raulino Bacellar, fazia o possível para me ver de viagem, fugindo àquela vergonha que ele, por sua vez, não queria suportar por mais tempo. Desejava retirar-se no dia seguinte, indo celebrar missa no povoado do Espírito Santo, cerca de cinco léguas rio abaixo.
À noite, a desordem atingiu o seu auge. Gritos, tiros, correrias traziam a vila em sobressalto. Defronte a casa onde me hospedei veio alta noite descarregar o seu bacamarte um valentão, dizendo aos outros em ar de mofa que aquilo era para experimentar o engenheiro que ele sabia estar ali dormindo àquela hora.
No dia 25, lá pelas quatro horas da tarde, atravessei o rio para a outra margem; embarcando-me numa canoa com meu hóspede, o sr. Antônio Alves, que não descansou enquanto não se despediu de mim e não me viu de viagem a caminho da Bahia."
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Fonte: RIO SÃO FRANCISCO E A CHAPADA DIAMANTINA, Teodoro Sampaio; organização José Carlos Barreto de Santana - São Paulo, Ed. Companhia das letras, 2002.

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