21 de outubro de 2009

Idos de 1928

A guerra dos dois Joões.

Era uma vez dois Joões, que quase provocam uma guerra entre a Bahia e Minas. Em 1928, nas barrancas do São Francisco, um João, depois de dois mandatos de prefeito (intendente) de Carinhanha, na Bahia, fronteira com Minas, saiu ilegalmente candidato a um terceiro mandato e, como era o presidente da Junta Eleitoral, "desavergonhadamente confirmou sua vitória". O adversario também era um João, correligionário do governador da Bahia, Vital Soares, que fez o Senado estadual reconhecê-lo vitorioso. E começou a pancadaria. O primeiro João foi buscar apoio em Minas, com o governador Antonio Carlos, adversário político do governador da Bahia. Os aliados do segundo João na Bahia e seus parentes no norte de Minas (sobretudo de Bocaiúva, terra de José Maria Alkmin, o ministro de JK) correram em socorro dele e entraram furiosamente na briga. E foi assim que dois João, o coronel João Duque, avô do ex-deputado do Paraná Helio Duque, e o coronel João Alkmin, avô do governador de São Paulo Geraldo Alckmin (com c), quase mudaram o rumo da Revolução de 30. Alckmin Essa história está toda pesquisada, documentada, contada, em um magnífico livro, "Coronelismo e oligarquias, 1889 a 1943", do historiador norte-americano (apesar do nome) Eul Soo Pang, professor da University Vanderbildt, editado nos Estados Unidos e, em 1979, no Brasil, pela Civilização Brasileira (agora da Record) do saudoso Enio Silveira. Dias atrás, Geraldo Alckmin disse em Recife (e era verdade, o que é importante, hoje, no Brasil de Lula e do PT, que virou o Brasil da mentira): "Quero deixar claro o seguinte: a minha origem é nordestina. Quando minha família veio da Espanha, de Portugal, ela veio para a Bahia, para Carinhanha, lá nas barrancas do rio São Francisco. Nasci em São Paulo, mas minhas raízes são nordestinas. Eu sou baiano". (Muito prazer, conterrâneo!). O coronel João Alkmin, protegido de Vital Soares, governador da Bahia e vice do paulista Julio Prestes, acabou derrotado em 30 pelo coronel João Duque, apadrinhado pelos vitoriosos Antonio Carlos e Osvaldo Aranha. E foi embora de Carinhanha para São Paulo, no Vale do Paraíba, em Pindamonhangaba, onde o neto Geraldo nasceu, prefeitou e virou governador. Se o neto do segundo João for presidente da República, agradeça ao primeiro João, que obrigou o avô a trocar de rio: o São Francisco pelo Paraíba. E não decepcione o neto do primeiro João, nosso amigo, o baiano Helio Duque. Antonio Carlos Não eram amenos aqueles tempos dos coronéis João de Carinhanha: 1 - "Antonio Carlos estava envolvido na luta interna de poder do PRM (Partido Republicano Mineiro) quanto à escolha de seu sucessor, e desejava liquidar Alkmin, conhecido adepto da facção paulista do PRM, liderada pelo vice-governador de Minas Alfredo Sá e por Carvalho Brito, partidarios de Washington Luís e da candidatura de Julio Prestes" (contra Getulio Vargas). 2 - "A Comissão Executiva do PRM deixou de indicar Bias Fortes, escolhido por Antonio Carlos, e ofereceu o cargo a Venceslau Brás e Artur Bernardes (ex-presidentes). Finalmente foi indicado um candidato de conciliação, Olegário Maciel, de 74 anos, e o vice Pedro Marques de Almeida, adepto do governador. Achava-se que Olegário não terminaria o mandato". (Não terminou. Em 33, apareceu morto na banheira do Palácio da Liberdade.) João Duque 3 - "Os principais coronéis baianos do São Francisco estavam envolvidos na luta Duque-Alkmin. Franklin Lins de Albuquerque, de Pilão Arcado (pai dos deputados Teodulo e Wilson Lins Albuquerque), e Chico Leobas, de Remanso, imediatamente tomaram o lado de Duque". 4 - "Outros enviaram seus exércitos pessoais para ajudar Duque. Washington Luis resolveu indiciar Duque, Franklin, Leobas e outros coronéis. A Força Pública de Minas rapidamente mandou retirar Duque da Bahia". 5 - "Os conflitos subseqüentes entre Duque com a Força Pública de Minas e Alkmin com a Força Pública da Bahia prepararam o caminho para uma ligação entre os coronéis anti-Vital Soares e os conspiradores de Minas. Lidando habilmente com os aliados de Duque, Antonio Carlos organizou uma série de encontros entre os diretórios do PRM e os coronéis baianos". João Alkmin 6 - "Em fevereiro de 30, Duque havia se tornado o principal recrutador de adeptos à Aliança Liberal no Vale. O PRM nomeou Franklin chefe do recrutamento no Médio Vale e escolheu Mario Brant, Odilon Braga e o tenente Djalma Dutra para principais organizadores da conspiração na Bahia". 7 - "Com Duque no sul e Franklin no norte, todo o Vale passou para o lado revolucionário bem antes de outubro de 30. A estratégia era enviar Franklin e seu exército para Salvador, a fim de tomar o governo do Estado, enquanto Duque desceria o rio para acabar com os focos de resistência". 8 - "Duque esteve na fronteira de Minas depois que a revolução explodiu. Com a rendição final das tropas federais em Minas, no dia 15, dois dias depois Duque e seus aliados mineiros estavam em Carinhanha. Após 10 horas de luta entre Duque e Alkmin, a cidade caiu nas mãos de Duque."
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Fonte: Blog Allan de Mello, Sexta-feira, 9 de Maio de 2008.

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